Alamanaqueiras: ou não queiras.

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terça-feira, 27 de junho de 2017

"O Botafogo não é de nada!".

João Saldanha era o anti-Nelson Rodrigues

Alvaro Costa e Silva 


SÃO PAULO, SP, BRASIL, 26-05-1969: Futebol: João Saldanha, técnico de futebol, jornalista e escritor. (Acervo UH/Folhapress. Negativo: 12818-67)


João Saldanha, cujo centenário de nascimento comemora-se em 3 de julho, garantia —e ai de quem duvidasse dele!— que comeu poeira chinesa atrás de Mao Tsé-tung na Grande Marcha e no Dia D desembarcou na Normandia com o general Montgomery.

Saldanha também esteve, de 1950 a 1990, em todas as Copas do Mundo, como analista de futebol e torcedor. Contava que só perdeu a primeira, em 1930, no Uruguai, porque preferiu prestigiar uma corrida de cavalos em cancha reta, "a mais importante e célebre das fronteiras", realizada perto do seu Alegrete (RS) natal. Também viu, em 1933, a grande vitória de Mossoró no primeiro Grande Prêmio Brasil de Turfe.

Segundo Rubem Braga, era "um cara que não perdeu o topete gaúcho e incorporou muito da malícia carioca". Famoso no Brasil inteiro, costumava ser parado na rua. Menos no Rio. Aqui, era reconhecido, mas o sujeito fingia que não dava bola e esperava certa distância para gritar pelas suas costas: "O Botafogo não é de nada!".

Dos múltiplos Joões —líder estudantil, dono de cartório, brigão, mitômano, comunista de carteirinha, jogador de basquete, ator de cinema, candidato a vice-prefeito, comentarista de rádio e televisão, cartola que levou Didi para General Severiano, selecionador das "feras" no Mundial do México, o Sem-Medo— destaca-se o cronista esportivo. Batucando nas pretinhas, foi, por excelência, o anti-Nelson Rodrigues. Ao hiperbólico e homérico de Nelson, Saldanha contrapunha o coloquial das esquinas. Escrevia como se estivesse conversando na roda de amigos da rua Miguel Lemos, em Copacabana.

Dicas de leitura: o recém-lançado "As Cem Melhores Crônicas" (LivrosdeFutebol). Ou a nova edição de "Os Subterrâneos do Futebol" (Lacre). Meu exemplar autografado de "Meus Amigos" (Mitavai) emprestei e nunca mais vi de volta. Vida que segue.

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