Alamanaqueiras: ou não queiras.

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terça-feira, 23 de maio de 2017

Vamos fazer mais pelas crianças do que rotular seus comportamentos?

Pais erram ao comparar crianças diferentes pelos mesmo padrão

Rosely Sayão

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Juliana, mãe de uma garota de quatro anos, está aflita. Foi chamada pela escola e ouviu que sua filha é imatura, porque apresenta comportamentos diferentes dos colegas, e um acompanhamento foi indicado para a menina. Beatriz tem um filho de dois anos que ainda não fala, e os amigos, com filhos em idade semelhante, a deixaram preocupada, porque disseram que o menino deve ter algum problema.

Os pais de uma garota de seis anos também foram chamados pela escola, que disse que o seu ritmo de aquisição de leitura está lento, o que indica a presença de algum problema e a necessidade de acompanhamento psicopedagógico. Todos esses pais conversaram com o pediatra de seus filhos e ouviram que eles têm saúde boa e desenvolvimento normal.

Esses casos, parecidos com outros que ocorrem com frequência, são excelentes para provocar nossa reflexão a respeito do desenvolvimento infantil. Na segunda metade do século passado, o desenvolvimento infantil era, predominantemente, considerado um fator "natural" por profissionais da saúde e da educação, em especial.

Segundo essa visão, a criança apresentava uma determinada sequência de estágios em seu desenvolvimento que era prevista, o que permitia acompanhar seu progresso. Essas tabelas fizeram muito sucesso -ainda fazem-, e colaboraram para estabelecer duas questões problemáticas para as crianças, principalmente na primeira infância: estabeleceram padrões de normalidade e estimularam a comparação entre o desenvolvimento de diferentes crianças.
Novas teorias do desenvolvimento trouxeram visões que superaram a anterior, mas até hoje elas são menos conhecidas nas escolas do que a que construiu as tabelas de desenvolvimento por estágios. O pior é que, com essas tabelas, pouco resta aos professores fazer pelos alunos, porque, constatado o "atraso", tudo o que a escola acredita poder fazer é comunicar o fato à família, para que esta tome medidas de algum tipo de acompanhamento.

É compreensível esse raciocínio, principalmente em tempos de medicalização da educação, mas não é aceitável, porque seus efeitos são nocivos: o resultado são crianças rotuladas, que passam a ter a autoimagem prejudicada, e famílias angustiadas.

É preciso considerar que as crianças não se desenvolvem de modo homogêneo, como já foi considerado. Precisamos, para avaliar o desenvolvimento de uma criança na primeira infância, conhecer seu ritmo na aprendizagem, o contexto sociocultural em que vive, o papel social que ocupa -tanto na família quanto na escola e na sociedade-, entre outros fatores.

Quando pensamos desse modo, fica fácil entender que não é possível estabelecer normas de desenvolvimento que possam ser aplicadas a todas as crianças, não é verdade? Uma crianças de quatro anos não pode, jamais, ser chamada de imatura. Adultos podem ser imaturos; crianças, não!

O fato de uma criança de dois anos ainda não falar não significa que ela esteja atrasada: pode ser que não precise falar, porque a família compreende as outras linguagens que ela usa para se comunicar. E, finalmente, uma criança de seis anos que ainda não decifra os códigos da leitura e da escrita pode ter um letramento mais rico do que as que já conseguem escrever e reconhecer letras e palavras.
Vamos fazer mais pelas crianças do que rotular seus comportamentos?

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