Alamanaqueiras: ou não queiras.

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domingo, 14 de maio de 2017

uma sociedade movida a psicotrópicos

A loja de bairro fecha e o carioca já sabe: vem aí mais uma farmácia 

Alvaro Costa e Silva


Quando uma loja de bairro fecha as portas definitivamente, o carioca já sabe: "Xi! Vem aí mais uma farmácia".

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Em todo o Brasil, são mais de 70 mil farmácias, e o Rio se "orgulha" de ter a maior delas.

Fica em Copacabana e antes era uma loja de eletrodomésticos. Vende tudo, até falsos chapéus panamá. São mais de 30 mil produtos, muitos dos quais antes só eram encontrados em supermercados. O mais difícil é achar uma pomada para calos. Mas chinelas de dedo –caríssimas, por sinal– existem às pencas.

O troca-troca no setor de varejo é fruto da recessão. Redes maiores assumem imóveis abandonados cujos comerciantes menores foram vítimas da crise e da especulação. Mas não só. Gigantes também desistem: em Ipanema, fechou uma loja da Nike; no Leblon, da Adidas.

As mais tradicionais amanhecem vazias, deixando um aperto de saudade. Foi assim com a casa de chá Cirandinha, que havia 50 anos servia simpáticas senhoras de cabelo azul em Copacabana. E, no mesmo bairro, com a sapataria Santa Fé, na galeria Menescal, mais de 60 anos no ponto.

O Petisco da Vila, em Vila Isabel, deixou o chope e o frango a passarinho no passado. Tudo bem, a qualidade do serviço (e dos petiscos) não andava das melhores. Mas, poxa, era um lugar em que você poderia encontrar o Martinho da Vila.
Pegue-se a rua Marquês de Paraná, no Flamengo. Com pouco mais de 300 metros, tem duas farmácias (uma em frente à outra) e um sapateiro de porta, que bravamente resiste fazendo meias-solas.


Até o ano passado, contava com uma academia de ginástica e uma lavanderia. O antigo casarão que as abrigava está em reforma –atualmente tendo a fachada pintada de vermelho-bordel– para receber "um novo conceito em salão de beleza".

Um dos andares terá um ambiente com bar e mesas de sinuca. Funciona dessa maneira: você se distrai bebendo uma cerveja e vendo as bolinhas se chocarem no pano verde –e, quando olhar para o espelho, já era, ganhou um corte samurai ou tintura azul na barba.

SOTAQUE NO SAMBA

O jornalista Hugo Sukman –que assina a apresentação do CD "Um Malandro em Paris" (Tratore), de Michel Tasky– garante: o "samba francês" é quase um gênero em si. A prova é o repertório do disco, que mostra "Tem Francesa no Morro", sucesso de Assis Valente na voz de Araci Cortes, pioneira entre nossas cantoras de música popular. É o fenômeno de duas línguas em nenhuma: "Si vous frequentez macumbe entrez na virada e fini pour sambá".

Não é bem o francês de Marcel Proust, mas o legítimo da praça Mauá, que faz a graça nas letras de "A Neta da Madame Roquefort" (Nei Lopes e Rogério Rossini), "La Vie em Samba" (Denis Brean e Blota Jr.), "Canção de Pedroca" (Chico Buarque e Francis Hime), selecionadas na pesquisa de Tasky, cantor e compositor belga que mora há 25 anos no Rio. O som é pura gafieira existencialista.

AUTORRETRATO DO PROFESSOR

Esta é a última semana para ver aquela que já é considerada uma das melhores exposições do ano. Fecha no próximo domingo (21), no Paço Imperial, a individual de Gianguido Bonfanti, que apresenta 60 obras recentes, entre pinturas e esculturas.

Professor há 40 anos da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Bonfanti tem obsessão pelo autorretrato. Há dezenas deles: desenhos a bico de pena, pinturas a óleo e a recente produção escultórica em argila e bronze.

"O resultado é uma aprofundada pesquisa pessoal que rediscute figuração e abstração, cor e forma, existência e destruição. E sem qualquer concessão a modismos ou tendências", comenta o crítico Mauro Trindade.

NA LONA

Desde que a Lapa voltou ou "se revitalizou" que as apostas indicam um novo centro para a vida noturna: a praça Tiradentes, que já acolheu o auge do teatro de revista, nos anos 1940 e 1950.

O lance da vez é o Instituto Cultural Ruínas. Funciona há menos de um ano e fica no número 45 da praça. Abriga festas e feiras. A pista de dança é ao ar livre, coberta por uma lona. Portanto atenção ao tempo: com chuva, o programa pode virar uma furada.

O espaço fica perto do Bar do Nanam, que começou frequentado por um público alternativo, mas já virou "point". É o chamado Beco das Artes (rua Imperatriz Leopoldina), no entorno da Tiradentes.

ALVARO COSTA E SILVA, o Marechal, 54, é autor de "Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro" (Casarão do Verbo).


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