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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Uma operação policial que resulta em dez mortes é fato escandaloso o bastante: a indignidade se agrava com as explicações tortuosas oferecidas pelas autoridades.

Matança paraense

Editorial Folha




Uma operação policial que resulta em dez mortes é fato escandaloso o bastante. Na chacina ocorrida em Pau d'Arco (PA) nesta quarta-feira (24), a indignidade se agrava com as explicações tortuosas oferecidas pelas autoridades.

Trata-se da maior matança em conflito fundiário desde o massacre de Eldorado de Carajás, também no Pará, quando, há 21 anos, 19 agricultores perderam a vida.

Todos os mortos na fazenda Santa Lúcia, propriedade em disputa, são sem-terra; até onde se sabe, nenhum agente policial saiu ferido.

Apesar dessa circunstância comprometedora, o secretário de Segurança Pública, Jeannot Jansen da Silva Filho, endossou a versão de que policiais civis e militares só cumpriam mandados de prisão e, recebidos a tiros, reagiram.

As informações disponíveis são nebulosas, e não se pode a priori descartar que a violência tenha partido das vítimas. A propriedade encontrava-se invadida por um número indeterminado de sem-terra, que contrariavam uma ordem judicial de despejo.

Armas foram apreendidas; ao menos quatro dos mortos eram objeto das ordens judiciais de prisão como suspeitos de homicídio de um segurança da fazenda.

Entretanto parece evidente que, para contemplar a menos grave das hipóteses, houve emprego de força excessiva pelos policiais.

O secretário de Segurança esquivou-se de comentar a possibilidade de motivação criminosa, alegando que seria irresponsável antecipar conclusões sem o inquérito. Mas, de certa forma, foi o que fez, ao se fiar na palavra de agentes que deveriam, no mínimo, ser considerados suspeitos de ação abusiva.

Ainda mais porque, no dia seguinte, soube-se que os 24 policiais nem sequer esperaram a perícia para retirar os corpos do local. Tampouco encontraram-se por ali sinais que indicassem confronto, como sangue ou balas.

Questionada sobre as novas informações, a secretaria apenas respondeu que aguardaria o resultado das investigações. Não se sabe, entretanto, com que elementos estas poderão reconstituir o que ocorreu.

Não se trata de caso isolado, ademais. Há relatos de que, nas últimas semanas, ao menos outras sete pessoas foram mortas no Pará por conflitos agrários.

Espera-se agora do governador do Estado, Simão Jatene (PSDB), mostra de repúdio à violência mais convincente que a de seu secretário, assim como cabe ao Ministério Público atuar para garantir isenção à devida apuração da chacina em Pau d'Arco.

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