Alamanaqueiras: ou não queiras.

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quarta-feira, 24 de maio de 2017

“Procure alguém que pareça ter bom coração... Aqueles caras com jeito de católico ou marxista, gente que acredita na humanidade...”

Minha boa ação de hoje 


(David Alfaro Siqueiros, "Echo of a Scream", 1937)

Braulio Tavares



O mundo está ficando um lugar impossível de se habitar. 

Vou ao supermercado ao meio-dia, o que não é uma das coisas que me deixam de bom-humor. Confiro a lista e empilho coisas no carrinho. Batata, banana, abóbora, alho. Bife, frango, fígado. Cerveja, refrigerante, mineral-com-gás. 

O problema é que o supermercado passou por uma reforma recente, e tudo mudou de lugar: onde era a prateleira de sucos é agora a estante de vinhos, onde ficava o balcão de frutas é agora o balcão de carne-seca e sal... 

Mudou tudo. Está tudo maior, mais bonito e mais caro; é a saúde-com-anabolizantes do capitalismo brasileiro. Passo horas procurando o lugar onde tem lâmpada. (Não, não pergunto. Mulher adora perguntar onde ficam as coisas. Homem que é homem insiste até descobrir sozinho.)

Aí me aparece um pirralho com um pacote de biscoito na mão: “Moço, passa isso no caixa pra mim?...” 

Pronto: acabou meu dia. O camarada já está enfarruscado com a vida... e agora vem mais esta. Olho para o guri. É um mulatinho de seus 10 anos, com uniforme de escola pública, e mochila às costas. Isso deve ser golpe. A família manda botar farda pra dar credibilidade. Se eu aceitar comprar o biscoito, daqui a pouco ele vem com um litro de Ballantine: “Dá pra passar isso aqui? É pra minha Vó, ela sofre de pressão baixa...” 

Fico me roendo em dúvidas. Por que logo eu, minha Mãe do Céu? Tanta gente aqui dentro, e o moleque vem pedir a mim. Isso é golpe, é esperteza da família. A mãe apronta ele, e aconselha: “Procure alguém que pareça ter bom coração... Aqueles caras com jeito de católico ou marxista, gente que acredita na humanidade...”

Suspiro fundo. “Tudo bem, põe aí.” O guri põe o biscoito e eu lhe dou as costas, vou pegar o filtro de café e descubro que a prateleira agora é de conservas. 

Quando me viro, o que vejo? Lá vem o garoto, empurrando meu carrinho! Acabou-se minha paz. A gente não pode nem ter um gesto humanitário sem que eles queiram logo grudar na gente. 

Este é o meu problema com as virtudes teologais: Fé e Esperança tudo bem, a gente pode exercê-las em paz, no sofá, de braços cruzados, mas a tal da Caridade obriga a gente a se relacionar com desconhecidos. Que mundo!

O menino fica me assessorando à revelia até que por fim passo no caixa, ele agradece feliz e dispara de rua afora com o biscoito na mão. Tomara que esteja mesmo indo para a escola, e não para a boca-de-fumo. 

Tem horas que eu preferiria que um camarada desse me abordasse de canivete em punho, numa rua mal iluminada. Eu teria um bom pretexto para sair correndo e nunca mais olhar para a cara dele. 

Não é pelo preço do biscoito. É por este espinho encravado num lugar que não conheço, remorso de crimes que eu não me lembro, essa pedra de estilingue estilhaçando o espelho-meu. Cai fora, pirralho, não olha sobre o meu ombro enquanto escrevo, que assim eu me desconcentro.

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