Alamanaqueiras: ou não queiras.

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Artrópodes articulando.

domingo, 7 de maio de 2017

o capital

Economia, dinheiro e Carnaval

Cristovão Tezza 





Nos últimos tempos, ando especialmente interessado em dinheiro. Explico: é uma preocupação profissional. Estou lidando com um personagem economista que trabalha em consultoria econômica. Como tento ser um escritor realista, é preciso que haja tintas de verossimilhança na minha figura ainda incompleta e, portanto, resolvi estudar o dinheiro mais a fundo, um assunto de que em geral só se fala por eufemismos, voz baixa e salamaleques, como o sexo e problemas de família.


Comecei do mais amplo: "Keynes x Hayek", de Nicholas Wapshott (Record), que conta a história do embate econômico que assumiu dimensões radicais no século 20. De um lado temos o irresistível charme do inglês John Maynard Keynes (1883-1946), defendendo a intervenção direta do Estado como indutor de desenvolvimento e, de outro, a secura germânica do austríaco Friedrich Hayek (1899-1992), um liberal clássico, para quem a liberdade econômica é sempre o melhor caminho.

A batalha teórica não impediu que, durante a Segunda Guerra, os dois gênios passassem a noite num telhado de Cambridge olhando para o céu a procurar bombardeiros alemães. Ali, eles estavam do mesmo lado.

A seguir, passei ao dinheiro propriamente dito, esse pedaço de papel em que todo mundo acredita mais do que em qualquer outro objeto cotidiano. Lendo "Dinheiro: Uma Biografia Não Autorizada", de Felix Martin (Companhia das Letras), desmontou-se minha crença: a de que o dinheiro teria sido uma evolução natural do escambo. Nesse idílio histórico, como na aldeia de Asterix, o pescador trocava um peixe por uma sandália; o artista, um menir por um punhado de trigo, e assim por diante, até que eles acharam mais prático usar moedas em vez de carregar mercadorias para ir às compras.

Descobri que não há nenhuma evidência de que algum povo tenha desenvolvido um sistema econômico à base de escambo; trata-se de uma fantasia. Todas as sociedades pré-dinheiro conhecidas viveram ou vivem uma economia de pura base tribal. O dinheiro não foi uma "evolução natural", mas uma ruptura que nasceu vinculada à escrita e mudou pela raiz a vida social.

O efeito imediato de sua implantação foi a possibilidade explosiva da mobilidade social: com ele, surge a figura do "novo rico", e a hierarquia mítica do mundo começa a vir abaixo. O dinheiro é democrático, e seu fiador absoluto é a confiança: um valor social igual para todos. No mundo antigo, isso era impensável. Felix Martin lembra que em nenhum verso da "Ilíada" e da "Odisseia" de Homero (em torno de 850 a.C) há referência a escambo ou a dinheiro.

O dinheiro também tem seu viés metafísico. Quanto vale uma libra? Exatamente uma certa quantidade de prata, nem mais, nem menos? O filósofo inglês John Locke (1632-1704) achava que sim. Num debate econômico, ele declarou, do alto de seu prestígio, à maneira cubista, que uma libra é uma libra, um valor inalterável do mundo natural, como o quilo e o metro.

O problema é que, com a inflação, os ingleses passaram a fundir as libras de prata e vender a prata, e as moedas desapareceram de circulação. Para outros, o dinheiro é apenas uma carta de crédito, como as tabuletas sumérias: "Vale 50 ovelhas". Você só tem de acreditar que as ovelhas existem. O valor não estaria nas ovelhas, mas na cabeça dos que trocam tabuletas.

Finalmente, já estou na metade de "A Ascensão do Dinheiro: A História Financeira do Mundo", de Niall Ferguson (Planeta), em que acompanhamos momentos fundamentais da história do dinheiro, desde a gigantesca montanha de prata de Potosí, a quimera que não salvou a Espanha e até a figura fáustica de Nathan Rotschild criando uma rede financeira que, no dizer do poeta alemão Heinrich Heine, estava ao lado de Richelieu e Robespierre no trabalho de aniquilar a velha aristocracia.

Não sei ainda como pensa o meu personagem, no seu momento de crise; talvez haja nele algum resíduo problemático da relação entre ética protestante e espírito do capitalismo, como queria Max Weber. Um estranho no ninho, na terra em que, dos barões dos governos Odebrecht à luta pelas aposentadorias especiais, o que melhor define a nossa alma econômica é uma imortal marchinha carnavalesca: "Ei, você aí, me dá um dinheiro aí!".

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