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terça-feira, 9 de maio de 2017

a casa de Bituca

Crítica: Tributo a Milton tem leveza e grandeza de uma visita

‘Casa de Bituca’, de Hamilton de Holanda Quinteto, segue trilha do homenageado


Hamilton e Milton. Homenageado participa do disco, que tem também “Travessia” na voz da cantora Alcione
Foto: Divulgação/ Rafael Silva
Hamilton e Milton. Homenageado participa do disco, que tem também “Travessia” na voz da cantora Alcione - Divulgação/ Rafael Silva
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A faixa em questão, que abre o disco, é “Bicho homem” (do álbum “Sentinela”, de 1980). A escolha nada óbvia — tanto por não ser um dos hits do mineiro quanto por seus caminhos melódicos e harmônicos originais — anuncia a profundidade do mergulho do grupo. Mais: mostra como esse mergulho na densidade pode e deve ser dado de forma pulsante (seja na alegria, como em “Bicho homem", seja na melancolia, como em “Canção da América”, arpejada solitariamente no bandolim de Hamilton).RIO - É um disco essencialmente instrumental, assinado por um grupo instrumental. Mas o primeiro som que se ouve em “Casa de Bituca”, tributo do Hamilton de Holanda Quinteto a Milton Nascimento, é a voz do próprio homenageado — sem palavras, num vocalise que se desdobra num coral de um homem só que na primeira nota é reconhecível como do artista. Assim, Milton dá licença para que o bandolinista e seus colegas sigam num dos muitos caminhos abertos por ele. No caso, uma trilha de um barroco-jazz brasileiro — etiqueta possível, apesar de todas as definições deixarem escapar um tanto do que é sua obra.
A compreensão do sagrado da música como algo que reside mais ao rés do chão do que na intocabilidade de um altar marca todos os trabalho de Hamilton. Não seria diferente com seu quinteto, formado por músicos, como ele, de excelência: André Vasconcelos (baixo acústico), Gabriel Grossi (harmônica), Márcio Bahia (bateria) e Daniel Santiago (violão). A identidade de cada uma dessas vozes, e a riqueza da forma como elas conversam, pode ser percebida na lúdica e conhecidíssima “Bola de meia, bola de gude” (um instrumento entrando de cada vez, com uma modulação surpreendente na parte final) ou na rítmica sinuosa de “Maria três filhos”.
Duas músicas não são de Milton, apesar de serem filhas dessa trilha aberta por ele: “Mar da indiferença” (Hamilton/ Marcos Portinari), que traz o bandolinista cantando pela primeira vez; e “Guerra e paz I”, que traz participação do mineiro e que já havia sido lançada num disco anterior do grupo.
As releituras propostas pelo quinteto nem forçam a mão da “subversão” nem pecam pela reverência excessiva. Mas a personalidade é sempre clara, seja na marcação quase R&B de “Clube da esquina nº 2” ou o suingue de bandolim cavaqueado de “Travessia”, acompanhando a condução de Alcione (ótima, como de costume).
“Casa de Bituca”, portanto, não eleva a obra de Milton, tampouco a reduz. Sem mirar no panorama ou na síntese, se define enfim pela beleza, leveza e grandeza de uma visita.
COTAÇÃO: BOM

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