Alamanaqueiras: ou não queiras.

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Artrópodes articulando.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

quando a boa inveja causa inveja.

A inveja que eu sinto

MARCEU VIEIRA



Li no “Globo” deste domingo, 9 de abril, uma crônica do querido Luis Fernando Verissimo que me encheu de inveja. Sentir inveja do Verissimo não é novidade. Confesso que invejo todas as crônicas dele. A deste domingo foi só mais uma.

Chamo o Verissimo de querido porque é mesmo querido pra mim. Por falar em inveja, pra de um monte de gente (“beijinho no ombro”, como diria a Valeska Popozuda), tive a alegria de trabalhar com ele. Mais ainda, de ser vizinho de porta de quarto de hotel e de conviver cotidianamente com ele durante dois meses em duas Copas do Mundo – a primeira, na Alemanha, em 2006, a segunda, na África do Sul, em 2010, intercessões que nos tornaram cúmplices pra sempre.

Aliás, a cumplicidade não passou a ser apenas com o Verissimo, mas também com a Lúcia, mulher e anjo da guarda dele, igualmente querida. Que inveja do Verissimo por ter uma mulher como a Lúcia – e que inveja da Lúcia por ter um marido como o Verissimo.

A crônica dele neste domingo, que me deixou de novo todo invejoso, fala exatamente disso, a inveja. Verissimo escreveu que sente inveja de quem se diz enfastiado por não ter nada pra ler. Isso porque ele, um apaixonado por livros, tem uma pilha deles na cabeceira e sobre os demais móveis de todos os cômodos da casa, e não tem dado conta de ler tudo, de tantos que são.

Gostaria de reencontrar o Verissimo pra contar que, como no poema do Manuel Bandeira, “minha cantiga é mais triste”.

Além de ter uma pilha enorme de livros pra ler, eu sinto uma inveja danada de muito mais gente. Invejo, por exemplo, o Clark Gable pelos beijos que trocou com a Vivian Leigh no filme “E o ventor levou…”. Invejo ainda o Laurence Olivier por ter sido casado com a Vivian Leigh e, por isso, ter trocado com ela um monte de beijos, muito mais do que o Clark Gable, com a vantagem de que todos foram de verdade.

Invejo até a Branca de Neve por ter ressuscitado após uma morte trágica, envenenada por uma bruxa, pra depois ser feliz pra sempre com seu príncipe – ao contrário do Romeu e da Julieta, coitados, autoimolados na tragédia do Shakespeare. Invejo, por falar nisso, todo mundo presenteado com um amor feliz pra sempre, como a Cinderela, que passa um perrengue grande, escravizada pela madrasta má, até calçar o sapatinho de cristal e viver com seu príncipe uma paixão total.

Mesmo que “pra sempre” seja só até daqui a pouquinho, no fim do desenho animado, eu invejo.

Invejo quem não sente enjoo depois de comer uma fritura suspeita. Invejo também o Santos Dumont por ter inventado o avião, e o Pixinguinha por ter composto “Carinhoso”, e o Zizinho pelas mágicas que dizem ter feito com a bola, e o Aldir Blanc pelas imagens que cria na escrita, e o Chico Buarque pelas facadas que nos dá no peito com seus versos femininos, e o Michael Phelps por nadar daquele jeito.

Invejo o Nei Lopes por ser tão talentoso e tão inteligente e tão acima de nós todos, e o Pedro Paulo Malta por cantar tão bem, e o meu irmão Pedrinho Zeca por ser tão espirituoso, e o enorme poeta Antônio Ribeiro Feitosa pelos poemas cometidos, e o jornalista e compositor e escritor João Janjão Pimentel, e o técnico de som Márcio Dorneles, e invejo ainda os palhaços distribuidores de alegria, e o gari que grita “bom dia” pra criançada da creche Cristo Redentor, em Laranjeiras – invejo tanta gente.

Invejo o cobrador do ônibus Cosme Velho-Leblon, que vê o tempo passar na janela, o tempo que só a Carolina do Chico Buarque não viu. Invejo o James Joyce por seus “Contos dublinenses”, pelo “Retrato do artista quando jovem” e, sobretudo, por ele ter existido como foi.

Invejo o Chet Baker por ter conhecido o Miles Davis, e invejo o Miles Davis por ter conhecido o Chet Baker.

Invejo o sujeito que aparece numa foto presa com ímã na geladeira de uma moça bonita, invejo a moça bonita pelo desprendimento do seu coração, invejo cada beijo que ela não deu em mim, invejo a grama do Maracanã na final do Campeonato Carioca de 1978, invejo o sorriso que a menina de branco deu pro namorado outro dia, e invejo até a reciprocidade do namorado da menina de branco naquele momento.

Invejo os brasileiros do país que eu achava possível quando tinha 20 anos, e invejo o Pedro Álvares Cabral por ter vindo parar aqui sem querer, e invejo Caramuru e Paraguaçu pelo amor deles, e invejo João Cândido e todos os marinheiros do seu tempo e seus contramestres, e invejo até as aves que recepcionaram Pero Vaz de Caminha na chegada da frota portuguesa ao Monte Pascoal.

Invejo o Jean Willys por ter cuspido no Jair Bolsonaro, invejo o pessoal que mandou o Eduardo Cunha tomar naquele lugar ao chegar preso pra depor, invejo quem xingou o Temer em São Paulo outro dia, invejo a autoestima do Super-Homem por não se sentir ridículo vestido com aquela sunguinha vermelha sobre a segunda pele azul, invejo os golfinhos por não serem peixes e viverem no mar, invejo o Bentinho do Machado de Assis pela paciência com a dúvida jamais resolvida sobre a Capitu.

Também invejo quem tem paciência com a impaciência renitente.

Invejo o Gabriel García Márquez por “Cem anos de solidão” e tantos outros livros impossíveis de esquecer, e ainda Andy Warrol pelos filmes e pelo rigor na “pop art”, e mais ainda o Garrincha por seu balé que, por justiça, deveria obrigar o Iphan a tombar os dois lados direitos do campo de ataque do Maracanã, e invejo ainda o Zico pelo enlevo que nos despertava e por ter conduzido quase toda uma geração, a minha, a torcer pelo Flamengo.

Queria dizer tudo isso ao Verissimo pra tranquilizá-lo pela inveja boba dele, e reiterar, principalmente, que eu, sim, o invejo.

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O cronista digital, que planejou tanta coisa boa pra este 2017, anda passado com a insanidade dos americanos do Trump e dos russos do Putin na Síria. Anda passado também com a insanidade do mundo em geral, e com as notícias de arrastão no Túnel Rebouças, e com as balas perdidas que invadem escolas no Rio, e com a desinformação dos motoristas do Uber, e com a infância e a adolescência desassistidas que parecem aumentar cada vez nas ruas das cidades brasileiras, e com o desassossego na Venezuela, e com o preço da caipirinha, e com o salário atrasado dos servidores públicos, e com o tamanho da roubalheira atribuída ao Sérgio Cabral.

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Pra quem chegou até aqui sem sentir enjoado, que inveja, bem-vindo ao novo blog do cronista digital.

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