Alamanaqueiras: ou não queiras.

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sexta-feira, 21 de abril de 2017

O Doria faz cocô e não sabe onde é a Lapa. Às vezes, ao mesmo tempo.

9 verdades e 1 mentira sobre SP

Tati Bernardi 


Consolação na Paulista e o Paulista na Consolação

Em São Paulo, todo cinema, toda sala, toda sessão, todo filme, tem pelo menos meia dúzia desses elementos autocentrados e deselegantes: os sociopatas sonoros que conversam sem parar.

Toda rua tem ao menos um estacionamento e um pet shop. Se você conhece alguma rua diferente, pode ter certeza que na perpendicular tem dois estacionamentos e uns três pet shops. Se você pega o carro pra ir até um pet shop que é do lado da sua casa (e para o carro em um estacionamento que é ao lado do pet shop) você exerce, sem se dar muita conta, toda a verdade da sua essência paulistana.

Se você descobrir um beco muito longe e estranho e perigoso e fedido e desconhecido e lá tiver uma biboca bem podre e sem nenhuma estrutura e sem qualquer documentação válida e você então decidir fazer lá a sua festinha, você acha que isso quer dizer que você é cool, mas na real só quer dizer que você é publicitário.

Tem um salão de beleza na Pompeia no qual, inocente, tentei marcar manicure, que funciona como fachada para massagens com relaxamento manual. Tem um flat família nos Jardins, no qual ficava meu dentista, que funciona como fachada para massagens com relaxamento manual. Fui me matricular numa meditação, na Vila Madalena, e me ofereceram "gratuitamente, só preu conhecer" uma massagem com relaxamento manual. A gente é muito tenso em São Paulo.

Hospital ostentação tem pianista internacional, salão de beleza, flores por R$ 350 e quiche orgânico e integral, mas não tem boa sinalização. Já marquei muitos médicos na tal "ala D" e jamais os encontrei. Tenho medo que a ala D fique numa dimensão paralela. Sempre acho que aqueles idosos fofos andando com o olhar perdido pelos corredores chegaram lá jovens, procurando a ala D.

Diferentemente do Rio de Janeiro, aqui se você entrar numa farmácia e perguntar onde fica a aspirina ninguém vai te olhar como se essa fosse a pergunta mais arrogante ou absolutamente idiota do mundo. Aqui, se você pede uma bebida pro garçom, diferentemente do Rio de Janeiro, ele não te traz outra bebida qualquer, com muito gelo que você não pediu, com muito açúcar que você não pediu e com meia hora de atraso que você não pediu. São Paulo tem dessas.

É uma cidade tão democrática e gentil que estamos sempre mostrando que o direito de sofrer não é exclusivo de quem sofre. Ontem, na fila do caixa de uma loja metida, uma mulher falou pra uma (visivelmente cansada) faxineira: "Ai que inferno, estou aqui parada há cinco minutos já!"

A galera que cuida do trânsito é de uma seriedade absurda. Não existe pagar R$ 300 pra ter sua vida agilizada. Pagar R$ 500 pra que alguém faça a provinha pra você. Pagar R$ 200 pra obter antes dos outros a sua carteira. Pagar R$ 400 pra passar no exame. Não existe pagar R$ 800 pras suas multas sumirem como se nada fossem. Ufa! Pelo menos em algum lugar a propina e a malandragem não operam!

Em São Paulo as pessoas falam "quer que eu pegue?", buzinam dentro dos túneis, pegam o metrô Consolação na Paulista e o Paulista na Consolação e acham rinite a maior aventura a que submetem seus filhos criados em carpetes.
O Doria faz cocô e não sabe onde é a Lapa. Às vezes, ao mesmo tempo.

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