Alamanaqueiras: ou não queiras.

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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Agora é administrar a crise, punir quem tiver que ser punido, e procurar reconstruir a política brasileira.

Como chegamos a esse ponto?

Celso Rocha de Barros



É um imenso alívio poder parar de comentar política brasileira como se tudo não estivesse prestes a explodir com a delação da Odebrecht. Explodiu, como todos esperávamos. Nem todo mundo na lista de Fachin é igualmente culpado, mas ficou claro que o cartel das empreiteiras controlava o sistema político brasileiro. Quem acompanhava política brasileira já suspeitava disso, e é uma satisfação poder parar de fingir surpresa. O "Lehman Day" da política brasileira chegou. A música parou de tocar.

A essa altura, você pode estar se perguntando como foi que a política brasileira chegou a este ponto. A resposta tem uma parte fácil e uma parte difícil.

A parte fácil é a seguinte: a política brasileira funcionou tão bem quanto possível dado que não estava submetida à lei. Políticos só começaram a ser presos no processo do mensalão. Até então, o risco de receber suborno era mínimo. E, veja bem, para que tenhamos chegado a esse ponto não é necessário que todos os políticos brasileiros já fossem predispostos a aceitar suborno.

Se não houver punição, alguém vai aceitar. O que aceitar vai ter muito mais dinheiro para sua campanha. Daí em diante, ou os outros também aceitarão para conseguir competir, ou serão derrotados e sairão do jogo. Repita durante muitas décadas e o resultado será sempre, em qualquer país do mundo, o que se viu na semana passada.

Isto é, embora todos estejamos elogiando juízes e policiais, quem demorou para chegar na democracia brasileira foram juízes e policiais fazendo seu trabalho diante do sistema político. Há hipóteses interessantes sobre porque só chegaram há pouco tempo. Suspeito que a primeira alternância de poder da história brasileira, que só ocorreu em 2003, tenha tido algo a ver com isso.

O outro motivo, um pouco mais complexo, é que as campanhas brasileiras são muito caras. O cientista político Bruno Reis já mostrou que a legislação eleitoral brasileira encarece as campanhas. Um sistema como o brasileiro, com distritos grandes (cada unidade da federação) e lista aberta, é algo raro no cenário internacional.

Um candidato a deputado por São Paulo, por exemplo, compete com todos os outros candidatos a deputado do Estado, inclusive com os de seu próprio partido. Isso é caro. Um sujeito que depende de arrumar muito dinheiro para não ficar desempregado por quatro anos terá grande propensão a aceitar suborno.

Agora é administrar a crise, punir quem tiver que ser punido, e procurar reconstruir a política brasileira.

O fundamental é não esquecer que temos tradições políticas respeitáveis que merecem ser preservadas. PT e PSDB como, antes deles, PTB e UDN, tinham esquemas de corrupção, mas não eram só esquemas de corrupção. As coalizões que lideraram nos últimos vinte anos agregaram interesses legítimos e ideias dignas de discussão, e o Brasil não pode largar no meio as conversas que petistas e tucanos conduziram. Desde a semana passada, a disputa pela liderança dessas coalizões está aberta.

E façam como Sergio Moro no aeroporto: ignorem quem defende a ditadura, que teria mandado fuzilar como comunistas toda a força-tarefa da Lava Jato na primeira vez que as investigações chegassem a um ministro. É em horas como esta que pé-de-otário dá mais fruto: não seja um deles.

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