Alamanaqueiras: ou não queiras.

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sexta-feira, 17 de março de 2017

a cidade paraibana de Monteiro, no Sertão do Cariri, poderá se converter a partir do domingo 19 de março na São Borja contemporânea da política brasileira.

Ato no sertão do Cariri será coroação de semana marcada por ‘volta, Lula’

Repete Getúlio Vargas: ‘Bota o retrato do velho outra vez…’

O ex-presidente Lula (PT) durante ato na Avenida Paulista, do Dia de Paralisação NacionalRicardo Stuckert/Instituto Lula - 15.mar.2017

MONTEIRO (PB) SERÁ UMA SÃO BORJA (RS) REDIVIVA?
O pior tipo de engenheiro é aquele que se dedica a criticar obras feitas. Espécimes assim grassam nos escombros das tragédias predizendo a posteriori erros de cálculo, projetos defeituosos, matérias-primas de má qualidade.
Nas redações o pior tipo de jornalista costumava ser o colunista quiromante. Qual Cacique Cobra Coral, espécimes assim pululam predizendo o futuro. Quando os fatos os contrariam, culpam os fatos. Mas em matéria de deficiência de caráter foram superados pelos arrivistas de porta de Ministério Público: são aqueles que vendem a mãe, e a entregam, em troca de 15 segundos de fama e algumas curtidas no perfil pessoal das redes sociais.
Arriscando-me a desempenhar o triste papel de colunista-quiromante, e para evitar ser chamado segunda-feira de engenheiro de obra feita, farei uma previsão: a cidade paraibana de Monteiro, no Sertão do Cariri, poderá se converter a partir do domingo 19 de março na São Borja contemporânea da política brasileira.
Um rápido bolsa-memória:
  • no Carnaval de 1949 o repórter Samuel Wainer, do Correio da Manhã, conseguiu de Getúlio Vargas, o ex-ditador recluso em sua estância gaúcha na cidade de São Borja, a bombástica declaração “eu voltarei” em meio a uma exclusiva entrevista de análise da conjuntura nacional. Foi a senha para PTB e PSD se unirem, “cristianizando” o pessedista Cristiano Machado e dando origem ao neologismo “cristianizar”, e autorizarem a nacionalização do jingle “Bota o retrato do velho outra vez/ Bota no mesmo lugar”. Em 1950 Getúlio seria eleito presidente da República. Saiu do Palácio do Catete morto.
No próximo domingo, no Cariri paraibano, Lula (PT) será ao mesmo tempo o mestre-sala e o porta-bandeiras de uma corajosa e ecumênica pajelança política convocada pelo governador da Paraíba Ricardo Coutinho (PSB). Ciro Gomes (PDT) estará lá. Dilma Rousseff (quase ex-PT), também. E Chico Buarque (dispensa apresentações. Não cabe em nenhuma delas. É maior que todas) anunciou que irá. O pretexto é dar a César o que de César é: a paternidade do perseverante ato de ter levado a cabo, a ferro e fogo, a obra de transposição do rio São Francisco e beneficiando cerca de 20 milhões de pessoas no semiárido nordestino.
Se tudo certo, o domingo de Lula no Cariri será a coroação de uma semana perfeita para quem cruza tempestades e tornados de peito aberto, envergando uma prosaica sunga e segurando um garfo à mão, na falta de para-raios.
O depoimento dado ao juiz da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, na terça-feira 16, rapidamente virou munição a favor do ex-presidente. Dono de uma capacidade singular de dominar a cena, respondeu por 48 minutos a perguntas frágeis da acusação e saiu gigante da sala de audiências. No dia seguinte, o ex-presidente discursou numa manifestação gigantesca na Avenida Paulista e começou a fazer convergir a seu favor a agenda da antirreforma da Previdência Social. Essa reforma, proposta pelo governo, assusta a todos de forma planificada.
Por fim, a autoanistia que parlamentares de todos os matizes ideológicos negociam (exceto, é verdade, PSol e Rede) terminará por conferir a Lula as credenciais necessárias para uma nova candidatura à presidência. Estará apto a fazer constar seu nome nas urnas de 2018, como todos os demais políticos querem se ver aptos a tal. Esse é o risco que correm os adversários do petista, cujas planilhas de cálculos políticos já foram acionadas: se tudo o que foi feito em 2016, passando a patrol na Constituição, justificou-se perante o status quo a fim de banir o PT e seu líder maior das urnas, aniquilando as chances que teria de voltar ao poder, valeria a pena seguir com a autoanistia destinada a manter as cabeças do establishment parlamentar sobre os pescoços mesmo sabendo que Lula e o lulismo ressurgirão no horizonte na forma de uma revoada de fênix?
Michel Temer foi a Monteiro e inaugurou formalmente o mais simbólico eixo da transposição do São Francisco. Em mais um de tantos gestos equivocados de comunicação a assessoria presidencial fotografou o presidente isolado, solitário, passeando pelas margens do canal leste da obra. As imagens que veremos do domingo trarão, seguramente, um Lula carregado nos ombros do povo sofrido e agradecido do Cariri. Um Lula exibido como troféu de anos de luta.
A simbologia do troféu humano será, sempre, a do pernambucano emigrado para São Paulo, vencedor antes as vicissitudes da vida; vitorioso e perseguido. Uma síntese de como se sente a maioria dos brasileiros: vivo ante as perseguições e injustiças que inegavelmente sofre. A imagem de um Lula de pé junto ao povo, mesmo depois de ver tombar a companheira de quase toda a vida, Dona Marisa, e forte e resiliente mesmo tendo lutado contra o câncer que quase o tirou a voz e, pior, quase o matou, será icônica em tempos estranhos de listas, para-listas e contra-listas de corruptos e de corruptores nos quais quase todos envergam o lombo ou submergem qual jacaré no Pantanal. Quem não o faz, desfila majestoso e altaneiro como um macho alfa na savana.
De Monteiro (PB), abençoado pelas águas transpostas do Rio São Francisco desde os lagos de Sertânia (PE), Lula autorizará que se faça ecoar pelo país seu “Eu Voltarei” contemporâneo. Em 1949 os postes do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Belo Horizonte, de Porto Alegre e do Recife amanheceram, certo dia, coalhados de cartazes com a frase e reproduções da entrevista. Na segunda-feira o Brasil despertará com uma flash mob instantânea em que o protagonista terá voz rascante, sorriso de tio bonachão, sangue nos olhos e faca nos dentes. No artigo da próxima segunda-feira, 20 de março, espero não me sentir nem engenheiro de obra feita nem me sentir envergonhado de ter sido colunista quiromante. Agora é hora de esperar os fatos teimarem acontecer.

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