Alamanaqueiras: ou não queiras.

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domingo, 12 de fevereiro de 2017

“Estou indo e é agora que estou me dando conta que este país, em tão pouco tempo, me mudou. Eu me sinto mais leve. O Brasil me ensinou a viver”.

“O Brasil me ensinou a viver”, diz diretor do EL PAÍS Brasil ao voltar para a Espanha
Os espanhóis têm dificuldade de entender que é quase impossível ficar zangado com um brasileiro

JUAN ARIAS





“O Brasil me mudou”, diz meu companheiro, o espanhol Antonio Jiménez, ao se despedir para retornar à Espanha. E acrescenta: “Fiquei aqui dois anos e meio e volto quinze anos mais jovem”.


Antonio não é um jornalista comum. É também um excelente romancista. Dirigiu com sucesso, durante sua estadia em São Paulo, a edição do EL PAÍS Brasil, deixando muito elevado para seu sucessor, Xosé Hermida, o nível de audiência e de penetração do jornal.

Não é uma pessoa que se entusiasma facilmente. Às vezes parece até chateado com a vida. “É que há tanta coisa neste país que não entendo”, me disse mais de uma vez durante esses anos de sua estada no Brasil.

Antes ele havia sido correspondente em lugares importantes como Paris e Lisboa. É um profissional exigente, especialmente consigo mesmo. Num momento de alívio, aqui, na pequena e bela cidade de Saquarema, aonde veio se despedir de mim e de minha mulher Roseana, confiou-me na orla de uma praia de areia branca e de um mar que mais parecia o Caribe do que o Atlântico:

“Estou indo e é agora que estou me dando conta que este país, em tão pouco tempo, me mudou. Eu me sinto mais leve. O Brasil me ensinou a viver”.

Mas você não me dizia, Antonio, que tinha dificuldade de entender este país? Eu estava convencido de que você estava indo aliviado para sua nova tarefa de responsabilidade na sede do jornal em Madri.

“Sim, é curioso, mas agora entendo melhor que a vida não pode ser vivida sempre sob tensão, que o trabalho não é tudo. Os brasileiros me ensinaram que se pode trabalhar, mas sem se esquecer de deixar espaços para viver momentos de felicidade”.

Diz que o Brasil o fez compreender que na Espanha e na Europa se vive “com excessiva seriedade e irritação”.

E a violência que aflige este país, com o maior número de homicídios do mundo? A violência quase da Idade da Pedra, com corpos desmembrados e decapitados nas prisões que você mesmo relatou no jornal?

Comentamos que, de fato, é uma violência às vezes truculenta e assustadora, mas que convive paradoxalmente com a índole pacífica das pessoas comuns nas relações sociais.

Comentamos que os espanhóis, mais propensos às agressões verbais na comunicação cotidiana, têm dificuldade de entender que é quase impossível ficar zangado com um brasileiro. Não te deixam espaço. Acabam te desarmando.

A sensação ao ouvi-lo é que a metamorfose que sofreu no Brasil o impede de se ver oprimido “pelo que não serve para poder viver a vida”.

Ele parte tão feliz que seu sonho agora é voltar de férias com a esposa e os dois filhos adolescentes para que também eles possam desfrutar das belezas deste país.

“Nada de levá-los ao Vietnã ou à Índia; é aqui, ao Brasil, onde quero trazê-los”, diz ele convencido.

Descalça as sandálias e corre para dar um mergulho numa água cristalina, mas agitada. Olho para ele e tenho a impressão de que está executando um ritual de despedida. Percebo que está emocionado. Ele me abraça e diz: “Até breve, Juan”. Na verdade, ele está se despedindo abraçando o Brasil.

Entro em casa e na coluna de Luiz Ruffatto leio que de acordo com a sondagem do Barômetro Global de Otimismo, realizada pelo Ibope Inteligência, 70% dos brasileiros dizem ser felizes. E quase outros tantos, que este 2017 será melhor do que o ano passado.

E a crise? E os 12 milhões de desempregados? E o câncer da corrupção política?

Antonio balança a cabeça, olha para o chão e diz que sim, sim, mas que apesar de tudo isso, foi neste país contraditório onde “despertou o desejo de ser mais feliz do que era ao chegar”.

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