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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

VALORIZA NA PELE A CIDADE DE SOL QUE OFERECE SUAS ILHAS DE SOMBRA.

Cidade, árvores e “direito à sombra”

Por João Miguel Lima

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Quando era criança, eu não entendia a expressão “conquistar um lugar ao sol”. Passa uma ideia positiva, mas por que seria uma conquista ficar exposto ao sol? Com o tempo, entendi que a expressão faz sentido em lugares com quatro estações do ano, em que o verão é desejado a cada inverno.

Fortaleza, como outras cidades tropicais, já é muito abraçada pelo sol. Não seria melhor conquistar um lugar à sombra?

A partir do espaço que habitamos, adotamos diferentes referenciais. Sabemos, por exemplo, que em nossos interiores semiáridos, a beleza está menos no céu azul e limpo, e mais no céu cinzento, com aquelas nuvens carregadas de chuva. Quem nunca ouviu que o “céu tá bonito pra chover”?

A recorrência do sol por estas bandas parece, então, orientar valores e conceitos, mas há desafios constantes. Ainda é prática usual o corte de árvores para a construção de obras e empreendimentos públicos e privados, como se fossem desimportantes. Entendo que agir na cidade é pensar a cidade, e vice-versa. Numa escala valorativa, o concreto fica acima do verde? Não há formas de favorecer a coexistência entre natureza e espaço construído?

Fiquei me perguntando qual o valor das árvores em nossa cidade. Podemos dizer que é biodiversidade, temperatura ou paisagem, mas vejo também uma importância ordinária, da ordem do cotidiano.

Costumava esperar meu ônibus para o trabalho numa parada no lado do sol. Para amenizar o calor, ocupava a sombra de um poste, ou ficava de pé no banco da parada. Sonhava com uma árvore frondosa; o suor no meu corpo dizia que era uma necessidade. Entre uma e outra gota de suor, em meados de 2014, vi como uma miragem no asfalto a expressão direito à sombra. Um direito que, apesar das condições urbanas, praticamos no cotidiano, mesmo sem saber, como um aprendizado do corpo. Ouso dizer: direito à sombra como um direito à cidade.

Levei essa questão para pensar com um coletivo de artistas-pesquisadores. Passei a observar e a fotografar situações em que buscamos ou criamos sombra: junto a postes e árvores, usando chapéu e boné, protegendo o rosto com as mãos (ou com livro, pasta, o que for), sentando no assento do ônibus no lado da sombra, improvisando toldos. Quando o espaço urbano não colabora com o direito à sombra, usamos objetos ao nosso alcance, criamos gambiarras, usamos nosso corpo como tecnologia sombreante. Essas fotografias estão no Instagram com a hashtag #direitoàsombra.

Somos inventivos, então também entrei na brincadeira. Como seria criar coisas com as folhas que caem das árvores? É o que tenho feito: coloquei longas folhas numa mochila e fui pedalar; costurei folhas a um chapéu e criei uma sombra ampliada; e costurei um “tecido” só de folhas secas. Formas sensíveis de me “vestir” de cidade-natureza.

Talvez não importe muito para quem se desloca num carro com ar-condicionado, mas quem caminha a pé ou se desloca de ônibus, moto ou bicicleta sente e valoriza na pele a cidade de sol que oferece suas ilhas de sombra.

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