Alamanaqueiras: ou não queiras.

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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

ah, doria.

Cidade cinzenta 

editorial folha


Alamanaqueiras: ou não queiras.

Exceção feita aos adeptos mais radicais de uma estética alternativa, é consensual o sentimento de que pichações não passam de vandalismo. Mancham não apenas a propriedade particular e pública mas também um bem imaterial de uso comum, a paisagem urbana.

Bem diverso é o caso do grafite, expressão artística que tem na cidade de São Paulo um de seus centros mundiais mais reconhecidos.

Ainda que muitas obras destoem dos padrões de bom gosto e que outras tantas não se destaquem pela qualidade, todas contribuem para dar vivacidade e cor a uma metrópole identificada pelo que tem de hostil e de cinzento.

No intuito de marcar o início de sua gestão, o prefeito João Doria (PSDB) parece ter confundido o grafite e a pichação, a arte e o vandalismo. Ou, pelo menos, levou com tal zelo o combate a este último que terminou destruindo bens que cumpriria preservar.

Depois de fantasiar-se de gari, Doria surgiu vestido a caráter para a nova ação publicitária. De uniforme laranja, com máscara e equipamento de pressão, dedicou-se a cobrir de tinta cinzenta vários grafites da avenida 23 de Maio.

A atitude despertou imediata consternação por parte dos grafiteiros, que poderiam a justo título considerar-se vítimas de uma forma de vandalismo oficial.

A prefeitura esclarece que seu propósito era renovar um espaço recoberto por pichações que desrespeitavam as intenções originais de cada artista. Os autores das obras, contudo, não foram consultados –nem concordam com a decisão, tingida de arbítrio, que Doria anuncia.

A saber, a de que locais especiais serão reservados para esse tipo de arte, não mais sendo permitida sua presença em toda a extensão da avenida. Qual o motivo da regra? Por que decidir, ademais, que alguns grafites já existentes estão livres da caiação da prefeitura?

João Doria, como se sabe, defende princípios liberais na economia e na política; como prefeito, entretanto, lança-se numa empreitada intervencionista e censória contra uma das poucas coisas que, pela espontaneidade criativa, tornam a cidade de São Paulo mais alegre e interessante de ver.

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