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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

E tem ainda um bando de hienas comendo estrume e dando risada em velório. Ô, se tem!


Renata D'Elia

Bom dia. Sou brasileira, urbana, branca, de classe média; frequentei ótimas instituições de ensino privado; falo três línguas; sou uma privilegiada em muitos aspectos. Vou completar 33 anos. Somando todo o tempo em que fui contratada por CLT no mundo moderno do ~empreendedorismo~ e da pejotização forçada, não dá 2 anos de contribuição com o FGTS e a previdência. A carga tributária é alta. O plano de saúde que eu pago já me custa, hoje, o olho da cara. Os cursos que pretendo cursar custam o olho da cara e estão sendo adiados por conta de uma crise político-institucional-econômica que parece infinita. Entre os que se encheram de cursos caros, há também os que amargam a fila de espera na vala comum.

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Não dá pra comprar imóvel porque os preços continuam altos e se arriscar em dívidas de 30 anos não parece uma boa ideia nem para quem se acha são e salvo (oh, really, are you sure?) no emprego formal registrado, participando de eventos corporativos com guaraná e empadinha de graça. Imagine pra mim, que não tenho FGTS pra sacar e dar de entrada. Já faz tempo que é melhor não contar com a educação e com a saúde pública sob risco de colapso total do sistema, que vai sendo sucateado. A população aumenta, a inflação e o custo de vida aumentam e a expectativa de vida cresce enquanto isso.

O brasileiro tem cada vez menos sobra financeira para aplicar, investir, pagar seguro de vida e acidentes, botar na previdência privada. Com a aprovação da PEC 55, os danos a longo prazo serão obviamente penosos para saúde e educação públicas, exceto para aqueles que vivem de gráficos. A educação e a saúde privadas, tirando as da elite, costumam ser péssimas: basta ver os índices de compreensão matemática e analfabetismo funcional da população - isso inclui os bacharéis produzidos por fábricas de diploma de quinta categoria. Nossa produtividade profissional, que não tem necessariamente a ver com horas trabalhadas, é baixa de acordo com esses índices gringos que o povo da empadinha com guaraná adora.

Com a aprovação da reforma da previdência, proposta ontem pelo governo federal, teremos todos que trabalhar por 49 anos dentro da CLT para recebermos o teto da aposentadoria. Isso se os infartos, depressões e AVCs em massa não nos dizimarem antes - não é difícil. Minha mãe está para se aposentar pelo teto nas regras velhas e, mesmo assim, teria uma importante queda de qualidade de vida se dependesse só disso. Já está e estará cada vez mais difícil viver e envelhecer para as classes mais privilegiadas.

Agora imagine o efeito das novas regras em massa para o trabalhador braçal e para quem não tem praticamente chance alguma de mobilidade social nesse momento e nos anos vindouros. Essas pessoas são a maioria. E nós estamos mais perto desta turma do que da turma que toma as decisões e bebe whisky com deputados enquanto nos alimenta à base de salário mediano, guaraná e empadinha.

Aí eu entro no site do jornal de manhã e dou de cara com depoimento de presidente de empresa privada, hoje menos bilionária do que ontem, enrolada até o pescoço em esquemas de corrupção e outros crimes, e o cara tá lá dissertando, do alto de sua torre de marfim na Marginal Pinheiros, sobre como o país precisa urgentemente aprovar as reformas exatamente como elas estão para voltar a crescer. Do lado de fora, o rio morto fede, a poluição assusta, o trânsito irrita, os céus fazem chover canivetes, os reféns são zumbis portadores de vale-refeição.

E tem ainda um bando de hienas comendo estrume e dando risada em velório. Ô, se tem!

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