Alamanaqueiras: ou não queiras.

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domingo, 20 de novembro de 2016

“A sociedade vai mudando e não há como negar: à medida que a desigualdade de gênero diminui, os sentidos ao redor da palavra prostituição também mudam”

A pele que habito - Obras de arte constroem novo imaginário da prostituição. Travesti e doutoranda da Unicamp, Amara Moira lança livro e se apropria da palavra para falar de seu ofício

Júlio Cavani



Prostitutas e michês sempre foram retratados com destaque nas artes ao longo do século 20. Entre os exemplos mais clássicos estão as demoiselles d’Avignon pintadas por Picasso, as dançarinas desenhadas por Toulouse Lautrec, a “bela da tarde” personificada por Catherine Deneuve no filme de Luis Buñuel, Julia Roberts como a linda mulher, e o garoto de aluguel cantado por Zé Ramalho. No século 21, surgiram novas formas de representação da chamada “profissão mais antiga do mundo”.

“A sociedade vai mudando e não há como negar: à medida que a desigualdade de gênero diminui, os sentidos ao redor da palavra prostituição também mudam”, defende Amara Moira, travesti, prostituta, feminista e doutoranda em teoria e crítica literária pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “O que uma mulher podia há 30 anos é muito distinto do que ela pode hoje, quando já tivemos uma mulher eleita e reeleita para a Presidência da República. Isso reflete diretamente na vida a que a prostituta tem direito”, afirma Moira, que lançou E se eu fosse puta (Hoo Editora).

Uma das maiores contribuições de Amara é o ponto de vista em primeira pessoa, baseado em sua própria vivência. “Quem conta as histórias do que é vivido na rua quase nunca sentiu na pele essa experiência”, critica a autora. “É só gente que não tem o mínimo de intimidade com nossas vidas se permitindo propor representações do que somos ou deixamos de ser”, provoca.

A pernambucana Severina Branca, de 71 anos, viveu a experiência da prostituição e a transformou em poesia. Exerceu a profissão em São José do Egito, no interior de Pernambuco, e é autora do mote “o silêncio da noite é que tem sido testemunha das minhas amarguras” – título do documentário, dirigido por Petrônio Lorena, sobre a poesia do sertão do Pajeú. O filme estreou na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, encerrada na quarta-feira. Versos dela inspiraram textos do curta Maria, de Carol Correia, um dos vencedores do festival Cine PE 2016, no Recife. Severina recita, mas não escreve, pois é analfabeta. Cega, mora no povoado de Mundo Novo (PE).

AQUARIUS A questão também está presente no filme Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, que faz uma espécie de apologia à prostituição. Os serviços de um garoto de programa (papel de Allan Souza Lima) são a forma encontrada pela protagonista Clara (Sonia Braga) para receber afeto sexual, pois os homens a rejeitam devido às marcas deixadas por um tratamento de câncer.

Na televisão, a prostituição ganhou novas abordagens nas séries Justiça, O negócio, Verdades secretas e Me chama de Bruna – essa última inspirada nos relatos da escritora e ex-prostituta Bruna Surfistinha, já levados ao cinema. “Preciso reconhecer: em algum grau, meu livro só pôde existir porque houve antes o dela, que me mostrou a potência dessas narrativas”, admite Amara Moira a respeito de Raquel Pacheco, a Bruna Surfistinha.

“Ela foi importantíssima para me mostrar o que eu não queria fazer, ou seja, um relato adocicado, ao gosto do entretenimento irrefletido e descompromissado com a transformação social, sem manter qualquer relação com o movimento de prostitutas ou mesmo com o feminismo”, afirma a doutoranda da Unicamp. “Bruna age mais por si mesma, sem manter qualquer relação com o movimento de prostitutas ou mesmo com o feminismo. É uma escolha dela. Eu quero fazer diferente”, avisa Moira.

TRÊS PERGUNTAS PARA

Amara Moira, travesti e escritora

Em 2016, a sociedade brasileira está mais conservadora ou mais tolerante em relação a questões de sexualidade?

Vejo uma polarização de posturas, o que leva Jean Wyllys a se eleger como o sétimo deputado federal mais votado do Rio de Janeiro, ao lado de Jair Bolsonaro. Há 10 anos, uma travesti iria na padaria e ninguém cogitaria tratá-la no feminino, mas esta é, cada vez mais, a realidade que venho encontrando desde que me assumi Amara, há dois anos e meio. Estamos passando a ter voz, finalmente. E isso traz como consequência a possibilidade de disputarmos a sociedade, a opinião pública. O que uma mulher podia há 30 anos é muito distinto do que ela pode hoje, quando já tivemos uma mulher eleita e reeleita para a Presidência da República. Isso se reflete diretamente na vida a que a prostituta tem direito. Quando avançamos rumo à sociedade mais igualitária em questões de gênero, as condições de trabalho da prostituta são afetadas diretamente. Podem tentar mudar isso de cima para baixo e voltar a instituir o lugar da mulher como acessório do homem – mero adorno, bela, recatada e do lar –, podem estabelecer um ministério sem mulheres. Porém, cada vez mais, vejo mulheres mais organizadas na base, mais fortes pra disputar a opinião pública e exigir transformações radicais.

As prostitutas ganharam novas formas de representação nas artes?

Pouco a pouco, estamos nos fazendo presentes na grande mídia, disputando a opinião pública. Isso é fundamental para mudar a forma como a sociedade nos trata e retrata. Se a sociedade quisesse saber quem são os homens que ela criou, perguntaria primeiro para as prostitutas, pela visão privilegiada que temos desses homens. Infelizmente, ainda é pouco o quanto nossos artistas estão de fato dispostos a nos ouvir e dar espaço. Seguem preferindo pensar por nós o que vivemos, imaginar a vida que vivemos, em vez de dar oportunidade para nós mesmas botarmos a boca no trombone. O mundo vai tremer quando prostitutas descobrirem o poder que têm nas mãos.

Que obras artísticas oferecem uma visão mais coerente sobre o tema?

Seguimos sub-representadas na literatura e nas artes em geral. Só há gente que não tem o mínimo de intimidade com nossas vidas se permitindo propor representações do que somos ou deixamos de ser. Quantas travestis autoras você conhece? Quantas prostitutas?


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