Alamanaqueiras: ou não queiras.

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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

a nada mole vida infantil no sertão nordestino.


Marcos Cirano

Minhas fracassadas experiências como empreendedor – Parte 1:

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1 – Eu tinha oito anos de idade e vendia cocada no campo de futebol, carregando um tabuleiro de madeira (que eu mesmo fiz) pendurado ao pescoço por uma tira de couro. Na mão, eu levava uma quartinha cheia de água. De modo que, quem comprasse uma cocada, tinha direito à água, servida num único copo de ágata que só era lavado quando eu retornava pra casa, geralmente às seis da noite, com o apurado (e as sobras da mercadoria quando havia) que eu entregava à minha mãe. Algumas vezes também era em dias de jogos do Egipciense Futebol Clube, mas na maioria das ocasiões minhas jornadas comerciais aconteciam nos dias de treinos dos atletas daquela briosa equipe. Minha clientela lá? Eram os próprios jogadores e uma meia dúzia de pessoas que sempre comparecia ao campo para assistir aos treinamentos. Talvez por isso o negócio não foi pra frente: dado ao pequeno tamanho do meu público consumidor. E foi aí que eu desisti desse primeiro empreendimento.

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2 – Antes de mudar de ramo, aos nove anos eu inventei de trabalhar por produção, cortando e carregando (nas costas) agave para um motor instalado no sítio do meu avô que eu chamava de Pai João. Mas, como o serviço era pesado demais para crianças, não aguentei seis meses. E foi aí que parti para outro negócio: fiz um carro de mão usando um caixão de madeira comprado na Padaria de Edu e parafusos e pregos adquiridos na Loja de Seu José Clementino e passei a carregar fretes na feira-livre da cidade, que acontecia aos sábados. Infelizmente, porém, também nesse nicho mercadológico não fui bem sucedido. Quase todos os comerciantes que atuavam na feira tinham seus próprios meios de transportar mercadorias e o que me restava como público-alvo eram poucas senhoras que não queriam carregar, elas próprias, suas sacolas de compras. O movimento era baixo, mas os negócios seguiam e eu conseguia algum dinheiro pra ajudar minha mãe ou para assistir as matinês no Cine Teatro São José (ainda lembro do filme Marcelino Pão e Vinho) nas quase intemináveis seções porque a fita partia a todo instante.

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3 – Mas, esse meu segundo empreendimento também fracassou. Durou somente até que, um dia, aconteceu uma tragédia. Sim! Porque pra mim foi uma tragédia. O sábado estava meio chuvoso, digo neblinando (lembro até hoje), quando uma distinta senhora me contratou para levar a feira dela em casa. Eram muitas frutas, verduras e tal, mas o percurso era curto e aquele frete seria uma moleza. Seria. Porque tinha um detalhe: aquela distinta senhora era, justamente, a mãe da menina que eu paquerava na escola (a paquerada nunca soube disso) e aquilo -eu carregando frete- iria por todo o provável (mas que nunca foi) romance abaixo. Mas, como tinha que encarar, lá fui eu, pedindo a Frei Damião que, ao chegar ao destino, eu não desse de cara com a minha paquerada. Mas, não teve jeito: foi exatamente ela quem recebeu a feira da mãe. E eu? Ora: morto de vergonha, voltei pra casa e nunca mais quis pegar frete na feira. Foi uma pena! Quem sabe se eu tivesse seguido no ramo não teria me tornado um bem sucedido dono de transportadora?! De novo, mudei de ramo: fui vender bala na porta do cinema, também num tabuleiro de madeira que eu mesmo fiz.

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4 – Logo no início, desconfiei que esse meu novo empreendimento não iria dar certo. Primeiro, porque eu já começava enfrentando dura concorrência: meu primo Jeovah (bem menos tímido do que eu) já era estabelecido no ramo, o que com certeza reduziria minhas chances de vendas. Depois, pelo tipo de mercadorias que eu vendia (eu uma criança de nove a dez anos): eram torrones enrolados em papel laminado e colorido; dropes sortidos; balas de vários sabores e embalagens chamativas...tudo comprado por minha avó (que eu chamava Mãe Vita) no comércio de atacado em Caruaru. Mas, nada disso ajudou e o negócio não deu certo! Atraído por aquelas delícias vindas de fora (no Sertão não existiam aquelas balas maravilhosas), eu não resisti: acabei comendo todo o estoque do negócio e fui à falência. Calma! Eu não comi toda a mercadoria de uma só vez. Foi aos poucos. Cada noite eu espera minha mãe e meus irmãos dormirem e, na ponta dos pés, abria o tabuleiro (que ficava em cima do guarda-roupa de casa) e pegava uma bala. Eu pensava: só uma não vai fazer falta... O problema é que, de uma em uma, eu comi tudo.

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