Almanaqueiras: ou não queiras.

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sábado, 3 de setembro de 2016

temos de defender a CLT, os direitos do trabalhador, que foram conquistados após tanta luta.

O Último dos Estáveis Decenais


Sergio Batalha Mendes




Ontem fiz a audiência do Sr. Antônio, 81 anos, admitido em 1952 nos Diários Associados e funcionário do Jornal do Commércio, que fechou as portas depois de quase 180 anos de existência. É provavelmente um dos últimos empregados com a estabilidade decenal prevista na CLT, pois trabalhou 64 anos no mesmo empregador. Foi admitido com 17 anos e lá permaneceu até ser demitido sem justa causa. Lamentavelmente, não recebeu suas verbas rescisórias e também não é aposentado, pois "não considera ético se aposentar e continuar trabalhando". Formado em Direito pela mesma Faculdade que eu (a Faculdade Nacional de Direito), apresentou-se de terno e solicitou que eu não pedisse a indenização por danos morais, esclarecendo que "queria receber o que fosse justo, mas não tinha rancor do jornal no qual passara toda a sua vida". Embora triste, sua postura era simpática e amistosa, sempre pronto a contar as inúmeras histórias de sua vivência profissional, que incluiu a função de editorialista do próprio Chatô. Na audiência, começo o trabalho com o registro da manifestação sobre a defesa em ata, com a preocupação óbvia de acelerar o processo. Depois, peço a Juíza para fazer uma breve manifestação. Pretendia ressaltar a importância da concessão de uma antecipação de tutela para que o Sr. Antônio recebesse logo sua indenização. Começo a falar e engasgo, a emoção me trai e tenho de parar. Peço desculpas, nunca me aconteceu em quase trinta anos de advocacia. Falo brevemente, tomado pela emoção, peço que se faça justiça a um homem de outro tempo. A emoção contagia a todos, a juíza com os olhos marejados, o meu cliente, a preposta, o advogado da empresa. A audiência se transforma em uma catarse e todos contam suas vivências, inclusive a juíza, que se recorda da dispensa do pai após quarenta anos de trabalho. Na saída, a preposta, uma moça simples, chorando, pega na mão do Sr. Antônio e pede "perdão em nome da empresa", acrescentando que ele "não merecia isto". O Sr. Antônio nos lembrou a todos sobre a dignidade do trabalho e me fez pensar: temos de defender a CLT, os direitos do trabalhador, que foram conquistados após tanta luta. O último dos estáveis decenais nos deu sua última contribuição, um exemplo vivo da dignidade do trabalhador para emular a luta pela preservação dos seus direitos.

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