
Luiz Antonio Simas
Vou retomar e desenvolver o que escrevi recentemente em um texto sobre a Câmara dos Deputados e vale para o Senado Federal. Vimos tudo ao vivo e o negócio é encarar a carantonha do horror. Um Brasil representado pelos parlamentares que manifestaram suas posições sobre o impeachment é esse aí: um país de capitães do mato, capatazes, senhores de engenho, feitores, bandeirantes apresadores de índios e destruidores de quilombos, etnocidas, torturadores, coronéis, traficantes, pistoleiros, membros do esquadrão da morte, misóginos, homofóbicos, ágrafos, parasitas sociais, fanáticos religiosos e arrivistas inescrupulosos.
O governo que foi para o vinagre durante a maior parte do tempo pactuou com este Brasil terrível, foi ungido e agora se vê engolido por ele. Um governo que saiu negociando e distribuindo cargos para os mesmos pastores fundamentalistas e vampiros do agronegócio que, babando e balançando grotescas cabeleiras pintadas, fizeram exortações e dedicaram a Deus e aos familiares o rolo compressor contra o mandato presidencial, estimulado ainda pela grande mídia e pelos capitães de indústria, até outro dia parceiros. Mas agora, sinceramente, não é hora de bancar aquela motocicleta do desenho Carangos e Motocas, que ficava enchendo o saco e ranhetando: Eu não disse? Eu não disse? O buraco é mais embaixo.
Agora é hora de encarar a morte dos sonhos de uma esquerda polyana que romantiza o precário e de outra que pragmaticamente acha que os fins justificam os meios. Eles foram esparramados no português canhestro dos parlamentares e na traição dos parceiros. As ilusões iluminadas dos liberais decentes e conservadores sensatos também foram atropeladas pelas exortações que bandidos faziam toscamente aos princípios de uma democracia representativa de ocasião. A ideia de um Brasil como cadáver nunca esteve tão presente.
Mas o pior pode estar ainda por vir e serei claro. O fascismo é um regime ancorado em organizações de massa. Se articula com setores do grande capital e da pequena burguesia urbana e busca perseguir e desarticular todas as organizações da sociedade divergentes da linha traçada pelo próprio estado. Para isso, elabora discursos de exaltação ao papel regenerador da violência e fundamenta-se na ideologia do nacionalismo extremado. É etnocentrico, militarista, normatizador de condutas privadas, regulador do cotidiano, pragmático e policialesco.
O fascismo exalta a união nacional em torno de noções como disciplina, virilidade e caráter natural da guerra regeneradora ao inimigo e fundamenta seu discurso na espera pelo líder purificador, carismático, sacralizado e dotado do espírito de salvação nacional.
Tudo isso que brevemente citei, baseado no fascismo clássico italiano, me leva a crer que há um caldo de cultura no Brasil propício ao fascismo.
Falta só o líder catalisador capaz de acelerar a irrupção de um regime que acabe mesmo, como no fascismo, com as liberdades fundamentais já solapadas. Há um clima propício para que este líder venha de fora da política institucional, com um discurso contra ela.
O mais assustador é o seguinte: um regime autoritário, de similitudes com o fascismo, mas dimensionado por nossas circunstâncias, não seria ancorado numa imposição de cima para baixo tão somente. Ele seria apoiado por vastíssimos setores da sociedade civil brasileira, inclusive por segmentos que seriam ferrados por este próprio projeto. Encaremos o monstro: há um Brasil cretino que se fortalece e clama pelo fascismo.
Conformismo ou escapismo não vão nos tirar dessa barafunda. As lutas políticas articuladas, progressistas, amplas e cotidianas, são urgentes. Esqueçam da vaca indo pro brejo: ela está atolada nele e só resta tirar a bicha dali. É a tarefa que nos aguarda. Simbora encarar essa bagaça.
Por enquanto é só isso que me ocorre.
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