Viva a vaia
O brasileiro sabe reconhecer o embuste. É um fantoche intuitivo, que, vira e mexe, acorda e toma ciência de que é um títere num palco de poderosos
Arnaldo Bloch
Já virou mais que lugar-comum citar Nelson Rodrigues, quando dizia que brasileiro vaia até minuto de silêncio.

Nelson dizia também que, eventualmente, mesmo os hinos dos clubes e das nações são vaiados fragorosamente. São verdades concretas, fáceis de provar, há vídeos, áudios e centenas de milhares, talvez milhões de testemunhas país adentro e mundo afora. Recentemente, bilhões de telespectadores souberam que brasileiro vaia atletas de salto com vara, de boxe, de judô. Uns acham feio, outros acham que faz parte.
O saltador francês Renaud Lavillenie acha feio. O saltador americano Sam Kendricks, bronze na mesma competição, que também foi vaiado por ser adversário de Thiago Braz (do Brasil) na disputa final, abriu o maior sorriso e tirou casquinha: deu volta olímpica com o brasileiro. Temer foi vaiado na abertura mesmo tendo discursado na moita. Ficou magoadinho. Não irá ao encerramento. Por enquanto, não tem nem bronze. O tempo dirá que tipo de metal o futuro lhe reserva.
O judoca (francês!) Teddy Riner, marrentíssimo, foi vaiado no tatame do Rio, ganhou o ouro, mandou o público ficar quietinho e depois disse que gostou das vaias, que elas esquentam a disputa, são um estímulo. Esse vai na linha de uma outra frase de Nelson Rodrigues sobre vaias, esta pouquíssimo citada: “Só a vaia consagra”. Claro que, nesse caso, a coisa tem outro sentido, vai na direção do “falem mal mas falem de mim”, só que num patamar mais profundo: era a vaia a uma dramaturgia ainda não compreendida, ou muito chocante e reveladora para o público de então, conservador e obtuso. Ora, quantas vanguardas não se beneficiaram das vaias como catapulta para um posterior reconhecimento do avanço que promoviam? O balé “Parade”, de Eric Satie, foi um escândalo.
Caetano foi vaiado e chamou o público de burro. As vaias tinham lá suas razões, e Caetano também, ao xingar a audiência. Com “Sabiá”, Chico e Tom foram vaiados. Ficaram tristes, mas com dignidade: são o ouro fino da música brasileira. Claudio Botelho fez piada sem timing em peça sobre músicas de Chico, foi vaiado, xingou o público, pediu desculpas. Gerald Thomas fez montagem iconoclasta de “Tristão e Isolda” no Municipal. Na estreia, ao fim da ópera, o público aplaudiu, mas Gerald não se conformou: entrou no palco com um escudo e foi vaiado. Mostrou a bunda e a cueca verde. Foi execrado. A temporada foi um sucesso: lotou da primeira à última apresentação.
Não é só o brasileiro que gosta de vaiar. Em 1980, o polonês Wladislaw Kozakiewicz recebeu vaias colossais na Olimpíada de Moscou. Não deu a mínima, empunhou sua vara, não reclamou e ganhou o ouro. Cada um tem a sua personalidade. Cada público também. Mas é claro que o campeão das vaias não é o moscovita, é o cidadão do país do futebol.
Por que será? Talvez por causa do futebol, pródigo em vaias ao time adversário, ao próprio time, ao juiz, à mãe do juiz, à torcida oposta e à própria torcida, entre si, motivos combinados com a falta de experiência na dinâmica olímpica, cheia de variações de nível de concentração, tradições e firulas entre as modalidades.
Outra hipótese é o “complexo de vira-latas” (olha o Nelson Rodrigues aí de novo, gente): a sina de terceiro-mundo, o chumbo no lombo do trabalhador, os arrochos, os impostos, os golpes... a vaia é a forra, o culpado é o adversário, seja ele quem for, francês, japonês, hino, ou até o morto homenageado pelo minuto de silêncio. Se não for o minuto de silêncio em si, que atrasa o jogo.
Alegações de falta de educação caem numa esparrela: um mesmo brasileiro, de diferentes classes, oscila da docilidade à explosão agressiva de acordo com o corolário que o pão de cada dia lhe impõe.
Pode ser a vida: o brasileiro vaia a existência. Não se leva a sério, o que é salutar por um lado, deletério por outro. Não sabemos bem a diferença entre o formal (imposto, truculento) e o respeitoso (coletivo, cívico). Tampouco distinguimos a esculhambação (desagregadora, submissa) do informal (necessário, democrático). Sérgio Buarque tem toda uma sociologia sobre isso.
Mas há algo que sabemos: que em qualquer arena pública, seja ela política, jurídica, cultural, esportiva, corporativa, há um quê de circo, disfarçado em instituição ilibada. O brasileiro, talvez por viver no limbo da cidadania, na corda bamba sem colchão, no trapézio untado de óleo, sabe reconhecer o embuste na voz empolada dos atores que regem sua vida. É um fantoche altamente intuitivo, que, vira e mexe, acorda e toma ciência de que é um títere num palco de poderosos.
É o boneco que se volta contra o ventríloquo, levando-o à loucura, ou fazendo-o purgar seus pecados e seu abuso. Essa, possivelmente, é a base que fundamenta a vaia como objeto de redenção e até de progresso: quando algo belo, de coração, algo que venha do fundo de nossos melhores valores, emerge com força, os aplausos tomam conta do pedaço, a aclamação é assegurada, e a vaia não tem vez. Mas, para merecer, não basta empostar a mentira em mesóclises: é preciso ser herói de verdade.
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