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domingo, 21 de agosto de 2016

fala, Bibi Ferreira: "Impeachment é tratamento grosseiro a dona Dilma."

Impeachment é tratamento grosseiro a dona Dilma, diz atriz Bibi Ferreira

Monica Bergamo 




A atriz e cantora volta a falar em "aflição" quando o tema é o momento político do país. "Todo mundo quer estar no poder. E tem essa coisa aflitiva de a dona Dilma [Rousseff] ser tratada desse jeito, com uma falta de delicadeza. É uma coisa que declaro em público: achei muito grosseiro o tratamento dado à presidente", afirma sobre o processo de impeachment (ao qual é "absolutamente contrária").
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Filha do ator Procópio Ferreira (1898-1979) e da bailarina espanhola Aída Izquierdo (1904-1985), Bibi estreou no teatro em 1941, com "O Inimigo das Mulheres", de Carlo Goldoni. "I'm a blessed [sou uma abençoada]", diz, segurando a medalha do Sagrado Coração de Jesus que carrega no pescoço. Em 2015, um infarto a obrigou a fazer um cateterismo e a interromper, por alguns meses, a turnê em que cantava Frank Sinatra.
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Resolvido o "probleminha", como ela se refere ao episódio, a artista voltou aos palcos. "Nunca pensei em parar, até porque é essa carreira que me sustenta. Aí é uma questão de 'dois e dois são quatro'. Para eu sobreviver, tenho que trabalhar", diz.
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Bibi, que evitava "esses assuntos de idade" e dizia só ter "pavor de dentista e avião", já não faz mais rodeios quando é questionada sobre seus medos. "Com a morte sou uma curiosa. O que que vai ser? Não vai ser nada ou vai ter alguma coisa? Então vamos com calma, com muita calma."
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Faz uma pausa mais longa e continua: "Tenho medo, sim, da morte. Tenho medo da dor da morte, da ocasião que será provocada. Disso eu tenho medo. Muito medo".
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O coração dela está medicado e sob controle, mas a audição e a visão começam a falhar. "A única orientação é falar alto", diz a assessora antes de levar a coluna ao quarto da artista. Mesmo sendo noite e com o lugar à meia-luz, Bibi usa óculos escuros. "Não é vaidade, não. É porque não enxergo bem mesmo. Desloco as coisas de lugar, tenho uma visão precária."
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Sua única vaidade "é o espetáculo". "Vivo em função, única e exclusivamente, do meu trabalho. É onde tenho que usar minha vaidade toda."
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No palco, de batom vermelho, brincos e vestido cheio de brilhantes, Bibi abre o show com "Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás", de Raul Seixas e Paulo Coelho. A música foi incluída no repertório por dica do maestro Flávio Mendes e segue para as apresentações em Nova York, entre 20 e 23 de setembro. "Lá vai ser em inglês. Cai perfeitamente bem", diz, entoando: "I was born ten thousands years ago".
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"O negócio é não sair dos 27 [anos], não é?", diz, aos risos. "Mas aí", continua ela, agora em tom mais sério, "é questão de encarar a vida com aquilo que a vida te deu: saúde, bom humor, possibilidade de comunicação. Pronto, acabou. Tá tudo muito bom."
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O espetáculo, com obras da portuguesa Amália Rodrigues, do astro do tango Carlos Gardel, da francesa Édith Piaf e do americano Frank Sinatra, é tratado por ela como insuperável. "É muito difícil conseguir um repertório como este, com pessoas que foram grandes talentos e fizeram grande sucesso."
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"E tem mais: o interessante é ver a ligação com o seu momento emocional", diz, como se não estivesse falando de si, para, em seguida, emendar: "Peguei isso com 'That's Life'. Não tem dúvida de que essa música [de Frank Sinatra] tem muito a ver comigo. É a vida, é muito bom."
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Bibi reflete bastante sobre sua história e seu ofício. Diz ser "complicado" estar "no palco dando o que pode dar e também se policiando, se policiando a cada nota, a cada frase musical. Isso tem que estar dentro de você como algo natural, senão vai sofrer muito e acabar ficando postiça".
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"Às vezes", continua, "o cantor começa a cantar, sente que o piano está desentoado e não pode parar. Acontece, é uma intempérie. A natureza fez com que o piano desafinasse. Então, erre! De vez em quando, desentoe"

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