Almanaqueiras: ou não queiras.

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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Quem nunca aprontou na adolescência que levante a mão. José Euflávio aprontou. E como!

O DIA EM QUE NEGO DÃO BEBEU DOIS BATIZADOS

José Euflávio - GiroPB



Na Vila de Sant’Ana do Garrote eu tinha muitos amigos no tempo em que a gente era menino. Ainda hoje guardo e preservo minhas amizades por lá. Um dos meus amigos de quem gostava muito era Nego Dão. Chama-se João Cirino, hoje um bem sucedido engenheiro químico na cidade de Salto, em São Paulo.

Nego Dão sempre foi um boa praça. Era ajudante do padre na Igreja. Teve um tempo que todos os padres que pela Paróquia de Sant’Ana passaram tiveram como auxiliar Nego Dão. Era o sacristão. Quando mudou-se para João Pessoa nunca perdeu a missa da noite de domingo na Catedral de Nossa Senhora das Neves, celebrada por Dom José Maria Pires.

Nego Dão ajudava o padre não só na Igreja da cidade como nas andanças que Padre Waldomiro fazia nos sítios e nos distritos de Pitombeira, Serra Branca, Palestina e Caiçara.
Em janeiro se celebrava São Sebastião, padroeiro da Palestina, a antiga Unha de Gato, terra da minha mãe e onde morava um tio e minha vó, Jovina Pinto.

Todos os anos minha mãe reunia os quatro filhos e levava para os festejos de São Sebastião. Numa dessas festas eu já era grande e virei ajudante de Nego Dão. 

Os pais pagavam pelo batizado dos filhos. Na verdade quem pagava era os padrinhos da criança. 20 por cento desse pagamento ficava para o sacristão.

Nego Dão tirava a parte dele e a gente ia para a bodega de Cícero Cordeiro tomar Conhaque de Alcatrão São João da Barra, uma bebida escura, forte com um gosto de casca de madeira.
Quando o dinheiro acabava a gente saia procurando famílias com crianças de colo e perguntava aos pais se a criança ia ser batizada. Para cada batizado, a parte em dinheiro de Nego Dão dava para tomar duas doses de conhaque.
Quando não tinha mais dinheiro, nós entramos no dinheiro do Padre Waldomiro e tomamos dois batizados de Conhaque com a expectativa de enganar o padre na contagem dos meninos batizados.

Não deu outra. Nego Dão só foi fazer a prestação de contas com Padre Waldomiro no dia seguinte já em Sant’Ana. O Padre não engoliu a conversa do Nego, reclamou da contagem e depositou em sua conta dois batizados.

Até hoje, quando me encontra, Padre Waldomiro pergunta se ainda tomo Conhaque.

O Negão era cheio de invenção e vivia a pregar peça nos amigos.
Nossa diversão, nos sábados e domingos, era deixar a Casa do Estudante, na Rua da Areia, tomar um ônibus na Pedro II, descer a Epitácio Pessoa e tomar banho de mar no Cabo Branco.

Um certo domingo Nego Dão foi com a gente e depois sumiu. Procuramos e nada dele. Assim mais ou menos no meio da tarde voltamos para casa e nada de Nego Dão.
No final da tarde o Negão chegou assim meio desconfiado como o gato que roubou o queijo da geladeira.

Na segunda-feira, depois da tarde de aula no Liceu Paraibano, chegou em casa e vou o quarto que dividia com ele: era o quatro 38, na Vila. De repente alguém chegou avisando que tinha uma moça querendo falar comigo lá embaixo.

Mulher não entrava na Casa do Estudante. Desci e quando cheguei lá estava uma moreninha linda, baixinha, os cabelos lisos, mais parecia uma indiazinha. Me apresentei à moça e ela tascou na bucha:
- Eu estou procurando Zé Euflávio. Respondi que estava falando com ele. E a moça:
- Não, Zé Euflávio é um moreninho de sorriso farto e a testa grande, assim meio gago.

Matei a charada. O danado do Nego arranjou uma namorada na praia e deu o meu nome. Estava explicado seu sumiço no domingo na praia.

“Filho da mãe”, disse baixinho comigo mesmo. 

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