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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A história da Paraíba foi marcada com o fogo da paixão - Frassales Cartaxo

Heróis e mitos da história paraibana

Francisco Frassales Cartaxo

João Pessoa

 

Ao longo de muitos anos a Paraíba embalou o culto a heróis de seu passado, o sangue dos mártires avivando a memória das pessoas. A memória e a paixão que envolveram o corpo do presidente João Pessoa do centro do Recife à capital paraibana para a veneração popular. E dali, em comoção crescente, singrou até o Rio de Janeiro, numa época em que o trem e o navio prolongaram o efeito da presença física do mártir, sacramentando ganhos políticos dos conspiradores de 1930. Assim, um governador de um estado insignificante, agigantou-se na onda da emoção nacional em torno das balas assassinas, o deputado mineiro Pinheiro Chagas a transplantar da França frases de efeito:
                           João Pessoa. Morto transformou-se em mártir
“Um homem como ele deveria ser enterrado de pé. De pé, como sempre viveu. De pé, como não vivem muitos dos seus algozes. De pé, como quis ser enterrado Clemenceau, com o coração acima do estômago e com a cabeça acima do coração”.

Desde então a história da Paraíba foi marcada com o fogo da paixão, o mártir da Revolução (embora contrário à derrubada violenta do governo) a servir de pretexto para a conquista do poder ao arrepio da lei, que João Pessoa, o juiz formalista, sempre procurou preservar. Conquistado o poder, o mártir fez-se escada para a ascensão de auxiliares que, estes sim, à sua sombra, conspiravam contra Washington Luiz.

José Américo - Ministro de Viação

A elite política e intelectual vitoriosa em 1930 edificou na Paraíba o culto ao heroísmo revolucionário. Adolescente em Cajazeiras não tive chance de conhecer nossa história que não fosse pela exaltação apaixonada do herói-mártir. Exaltação prolongada pela presença na cena nacional do herói-salvador, imantada na figura do ministro José Américo de Almeida que, no comando do Ministério de Viação e Obras Públicas retomou, na grande seca de 1932, as obras estruturadoras iniciadas no Nordeste por outro mito, o presidente Epitácio Pessoa, orgulho da “pequenina e heróica”, como nós mesmos nos referíamos à Paraíba, repetindo talvez sem saber expressão do grande chefe. Ou a ele atribuída.

Essas marcas, que povoaram minha adolescência, renovavam-se a cada dia 26 de julho, a Paraíba vestida de preto para reverenciar o presidente João Pessoa na data do seu sacrifício supremo, ofertado à causa revolucionária de 1930. Anos a fio, o desfile militar, de pracinhas da Segunda Guerra, de estudantes incorporou-se à rotina anual do 26 de julho, que exigia também discursos, palestras, conferências, tarefas escolares, enfim, tudo pontuado no culto ao herói.

E os fatos históricos? Os fatos serviam apenas para encaixá-los na moldura construída para entronizar mártires e heróis que a Paraíba ofereceu ao Brasil. Hoje não é mais assim. Um começo de ruptura despontou no final da década de 1970, quando, além dos murmúrios, emerge outra face da história, expressa em reedições de depoimentos, de memórias e versões de autores e personagens malsinados. Por que esse papo agora? Porque ando mergulhado em nossa história, revivendo mitos e heróis, cujos traços encontram-se esmaecidos a cada dia.



Frassales - é cajazeirense e filho do poeta Cristiano Cartaxo
                      





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