Almanaqueiras: ou não queiras.

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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

– Pai, está na hora de você voltar a me dar mesada, não?

O voo de galinha e o pavão do Butantã

Abril de 2008. O Brasil tinha sido elevado à categoria de grau de investimento pela S&P e tudo indicava que eu me transformaria no Warren Buffett do Butantã

 

Recado da Crônicas Financeiras - Tom Cardoso





Tinha uma grana razoável investida em blue chips. Eram outros tempos. Um economista metido a galã dizia todo dia na televisão que a Bolsa chegaria aos 200 mil pontos.
 No dia em que a The Economist colocou turbinas no Cristo Redentor, eu virei pra Julia, minha filha, então com cinco anos, e anunciei:
– A partir de agora você ganhará uma mesada. Duzentos reais por mês.
Minha mulher achou muito. Geni, a diarista que não faz café para qualquer um, gritou da cozinha:
– Tudo isso? Então me dá um aumento!
Dei o aumento para Geni e mantive a mesada de 200 paus.
Comprei um SUV. Os dois vizinhos de garagem também. Não dava para abrir a porta de nenhum dos lados. Aos domingos, com todos os carros na garagem, a gente tinha que sair pelo porta-malas. Ninguém reclamava.
Brasil takes off.
O resto é história. O foguete broxou. A bolsa despencou. O crédito acabou. Troquei o SUV por um HB 20. Vendi o HB 20. Comprei uma Scooter. Vendi a Scooter. Passei a andar de Uber, quando dá. Uber Pool, claro.
Fiz vários cortes na mesada da Julia, até suspendê-la por tempo indeterminado quando vendi minhas três mil ações da OGX – por vinte centavos cada.
Agora que o país ensaia uma reação – BC aproxima os juros da mínima histórica, a bolsa atinge sua pontuação máxima, etc, Julia me cobra:
– Pai, está na hora de você voltar a me dar  mesada, não?
– Ok. Dez reais por semana. Se o país melhorar, pra valer, eu aumento para 15.
Geni ouviu tudo da cozinha. Silêncio sepulcral.

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