Almanaqueiras: ou não queiras.

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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

" fazer uso da privada alheia (ainda mais quando esse alheio acredita ter dejetos preciosos, bunda de ouro, vagina de diamante, vai saber).

A luta de classes (por um banheiro)

Tati Bernardi 


Nessa semana, vários conhecidos, compreensivelmente inconformados, postaram a captura de imagem de uma conversa de WhatsApp –que não posso afirmar ser verdadeira (mas a chance é muito grande pois traduz perfeitamente nosso país)– entre uma "patroa" indignada e a esforçada faxineira que tinha cometido o imenso crime de utilizar o banheiro da casa para aliviar suas necessidades.

A mulher estava demitindo a empregada, apesar de ter gostado do trabalho da mesma, porque julgava ser "coisa de gente porca" fazer uso da privada alheia (ainda mais quando esse alheio acredita ter dejetos preciosos, bunda de ouro, vagina de diamante, vai saber).

A funcionária responde que trabalhou feito uma condenada, não era obrigada a ouvir isso e fazia questão de nunca mais voltar naquela casa (com toda razão). Então, a perua louca (que acha que mora num castelo, mas, gente, ela só tem um banheiro!) finaliza seus "nazi-argumentos" contando que jogou fora os pratos que a funcionária usou pra comer.

Enfim, se quisermos ir direto ao ponto, trata-se de um ser humano com nojinho de pobre. Trata-se de alguém que caminha livremente pelos Jardins, mas que comete o maior de todos os crimes: um desejo "inconsciente" de escravizar alguém com uma conta bancária inferior.

É tipo: "Gata, eu venho de uma casta especial demais para que meu ânus compartilhe da mesma visão do seu, nossos 'fossos' não podem ser o mesmo, entende? É tipo: "Querida, minha avó tem coleções de pratarias reluzentes, cristais que são uma cascata de luxúria e xícaras asiáticas do outro século, e você quer dividir as louças (sejam as de entrada, seja a de saída) comigo? É algo como "limpe minha distinta e magnífica sujeira, mas, por favor, não urine, não coma, não respire, não toque em nada, não fale comigo, gostaria que você nem existisse e pudesse limpar minha casa telepaticamente".

Que mundo é esse em que uma pessoa acredita piamente ter uma merda mais digna que a dos outros apenas porque seu vaso sanitário custou mais caro?

Segundo as fofocas das redes sociais (e não precisam me acusar de pós-verdade, se especificamente esse caso não for real, sem dúvida nenhuma é uma história real), a patroa doida foi quem divulgou a conversa, procurando coro para a sua angústia. Acho que ela esperava uma passeata na Paulista, um monte de bem-nascidas batendo panela Le Creuset, com shorts de linho nobre enfiados na buzanfa abastada, contra as diaristas que, "meldels" que desgraça, ousam ter órgãos excretores.

Estou com uma mocinha maravilhosa me ajudando aqui em casa e já ouvi as maiores barbaridades de amigos e familiares: "Você explicou que ela NÃO pode engravidar"? "Credo, ela pinta os olhos?".

Gente que posta no Facebook repúdio ao Estado querendo controlar o ventre de uma mulher (eu também repudio), mas que na primeira chance de ser mais humana, gostaria de meter uma rolha na minha empregada. Gente que posta no Facebook que veste a roupa que quiser, sai pelada quando quiser (e eu concordo!), mas quando se trata de uma faxineira... ah, não, ela usa sombra azulada! Essa vai dar bola pros porteiros, vai dar em cima do seu marido, essa "não presta".

É fácil ter sororidade com uma amiga de infância, mas se você fica aflita quando a alma boa que pega infinitos meios de transportes lotados e quentes (só pra limpar o seu lixinho!) usa sua canequinha queridinha pra beber água, precisamos nos revirar do avesso pra expurgar esse sentimento. Tem algo de muito sujo em nossos corações e não vai adiantar contratar alguém pra lavar.

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