Cláudia Laitano sobre "Caravanas": "Chico Buarque nunca foi tão feminista"
Editora do Segundo Caderno ouviu o novo disco do cantor e compositor, "Caravanas", que será lançado na próxima sexta-feira, dia 25.
Lançado depois de uma polêmica tipicamente internética (seria o maior compositor brasileiro machista e, pior, ultrapassado?), abastecida por muitos palpites e pouca substância, o novo disco de Chico Buarque, Caravanas, chega às lojas e aos serviços de streaming na próxima sexta-feira, dia 25. Morram de inveja: eu já ouvi. E gostei. Spoiler: Chico nunca foi tão feminista.
Na primeira audição, Blues para Bia logo se destaca, pelos versos docemente "empoderados", que celebram a liberdade feminina e refletem a sexualidade fluida das meninas do século 21. Tudo isso escrito por um senhor setentão, porém atento: "No coração de Bia/ Meninos não têm lugar / Porém nada me amofina / Até posso virar menina / Pra ela me namorar".
Gostei muito também de Jogo de Bola, que empresta o lirismo buarquiano ao universo do futebol, sua grande paixão. É uma preciosidade para os amantes do esporte (cheia de referências que, confesso, vão além das minhas chuteiras).
Chico, esperto, aproveita a atenção da plateia masculina para mandar um recado sobre o jeito como eles deveriam tratar as mulheres: "Salve o futebol / Salve a filosofia de botequim. / Salve jogar bonito / E não ganhar no grito / A simpatia quase amor da guria".
Caravanas, que fecha o disco, é uma obra-prima. Consegue ao mesmo tempo ser erudita (com referências a Camus e Duke Ellington) e profundamente fincada na realidade brasileira atual: "Com negros torsos nus / Deixam em polvorosa / A gente ordeira e virtuosa / Que apela pra polícia / Despachar de volta/ O populacho pra favela". Chico sendo Chico.
Mas o mais emocionante no disco talvez não esteja nas músicas em si, mas nas parcerias inéditas com Clara Buarque e Chico Brown. Que luxo cantar e compor com os netos, que bonito ver a tradição e o futuro se dando as mãos na caravana da vida. Para quem chegou agora no mundo, uma época em que, a julgar pelas letras que dominam as paradas e os espaços na TV e no rádio, todos os conflitos da existência parecem girar em torno de traições, motéis e sofrência, é difícil imaginar que um dia a música popular brasileira ajudou os ouvintes a entenderem mais sobre a vida, o país, as coisas.
A música que toca o coração e o bolso das grandes plateias nos dias de hoje é vulgar e distante da realidade e dos sentimentos complexos. Não porque essas músicas falem do dia a dia de gente comum, mas porque não saem do chão — não transcendem os sentimentos simples e muito menos os complexos. Compositores de verdade, os que conseguem transformar sofrência em sentimento e vida real em matéria-prima poética, voam — e carregam as pessoas comuns nas suas asas.
Viva Chico Buarque.
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