Sofrência
Há entre nós uma cultura colorida de sofrimento amoroso. A gente acredita em amar sem ser amado
Ivan Martins - Época
O que pega, para mim, são as fotografias. Elas estão em toda parte. Nas paredes, nas caixas de papelão, na memória do computador. Há fotos também no celular, nas redes sociais, na porta da geladeira dos amigos. As imagens incomodam, mas, ao mesmo tempo, há algo prazeroso a respeito delas. Os olhos ficam felizes, embora o coração se encolha de tristeza. Por isso as fotos continuam onde estão. Com as peças de roupa acontece o mesmo. Do interior de uma gaveta, inesperadamente, surge um par de meia conhecidas ou uma calcinha. Outras vezes é uma camiseta velha de dormir. O que fazer com elas? Nada. As coisas ficam lá, guardando cheiros e memórias. Quem sabe um fiapo de esperança.
O que não tem nenhuma ambiguidade é o vazio.
Não há nada de bom no vácuo que as pessoas deixam ao sair. Ele se espalha pela casa e pelos dias. Ocupa a mente com intolerável letargia. Quem fica fala de dor, mas talvez não seja a melhor palavra. O que mata é a ausência irreparável. Naquele espaço afetivo cabe um único ser humano que não está mais lá. Outras pessoas ajudam, distraem, consolam e nos fazem rir. Mas no eco de cada risada há uma nota de agonia. Em cada intervalo entre as palavras se instala um silêncio cheio de lembranças. Os olhos, a cada tanto, focam no vazio e vasculham, pela milionésima vez, a devastada paisagem interior. Nada pior do que uma casa vazia numa noite de luar.
Será isso a tal sofrência?
Procuro na internet informações sobre a palavra, inteiramente nova para mim. Só aparece gente chorando ao som de música brega. Mas tudo parece ensaiado, apesar das lágrimas. Pressinto que a sofrência já virou piada. A vocação brasileira para a galhofa transformou sofrimento + carência em pura sacanagem. Estamos rindo de nós mesmos e da nossa sentimentalidade na internet. Há nas redes sociais e no YouTube uma competição para decidir quem chora mais ouvindo canções do Pablo. É nosso jeito malandro de acusar o golpe. A melancolia verdadeira se expressa em público como gozação. Falamos alto para esconder nossa angústia. Mangamos dela. As músicas de corno - como se dizia antigamente - capturam nossa desilusão, mas a negamos no momento seguinte, dando espetáculo. A menina que chora copiosamente no vídeo transforma tristeza em arte. Seu exagero é o contrário do verdadeiro sofrimento, que costuma ser silencioso e circunspecto. O que ela faz é teatro, é internet, é farsa. Ainda bem.
Mas a sofrência de verdade existe, eu temo. E não apenas como resultado do abandono.
Há entre nós uma colorida cultura de sofrimento amoroso. A gente acredita em amar sem ser amado. Temos prazer em nos colocar na posição de vítimas. Certas dores são inevitáveis - como a do fim dos relacionamentos - mas nós nos inventamos problemas que não existem. Caímos por gente que nos ignora, o que é normal. Mas insistimos no engano até nos tornarmos inconvenientes, o que é masoquismo. Nos lamentamos publicamente por que um cara bêbado (ou uma garota bêbada) fez sexo com a gente na sexta-feira e não quis atender nosso telefonema no domingo. Por que deveria? Nos envolvemos com gente comprometida e depois choramos, desapontados, quando não largam tudo por nossa causa. Saímos com gente que sai com todo mundo e reclamamos quando não são fiéis.
Pode isso?
Somos patéticos em nossas queixas, essa é a verdade. Nesses assuntos não temos simplicidade, dignidade, resignação. Nos falta orgulho e ao mesmo tempo nos falta humildade. Nada mais arrogante do que achar que as pessoas têm obrigação de nos querer - e nada mais vergonhoso do que choramingar em público quando elas deixam claro que não querem. Onde está o equilíbrio? Em lugar nenhum. Preferimos gravar um vídeo lacrimoso no YouTube a levantar a cabeça e começar de novo, devagarinho. Ou nos achamos no direito de deixar 36 mensagens ofensivas e chorosas na caixa postal de quem teve a má sorte de cruzar nosso caminho. Em duas palavras, preferimos gemer.
Isso para mim é a tal sofrência - e acho uma porcaria.
Prefiro nos convidar à alegria.
Quando a dor for inevitável, que seja envergada respeitosamente, escrupulosamente, como requerem os verdadeiros corações partidos.
Andaremos tristes por um tempo (que idealmente será breve, embora possa ser enorme), mas manteremos o respeito por nós mesmos e por aqueles que uma vez amamos.
Nesse período funesto escreveremos poesia, ouviremos músicas sombrias, iremos ao cinema e leremos romances que dormem na estante há uma década.
Recorreremos aos amigos, claro, em busca de amparo e companhia.
Se alguém nos quiser, apesar da dor com nome e sobrenome que trazemos nos olhos, ficaremos grato.
Não faremos jamais do nosso sofrimento amoroso uma plataforma de acusação ou um modo de vida.
Seremos sinceros, tentaremos ser generosos, buscaremos a coragem e a esperança.
As fotografias sairão das paredes quando não forem mais importantes.
As roupas voltarão aos seus donos quando isso não mais tiver significado.
O vazio terá que ser atravessado como uma rua deserta numa noite escura - com mais determinação do que receio.
Se o final da fita não for feliz, ainda assim poremos uma cara valente e ergueremos ao vento nosso nariz em desafio.
Sofrência, afinal, é para os fracos, e nosso sonho é forte.
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