OBSERVAÇÕES DE UMA NÃO PARTICIPANTE DAS MANIFESTAÇÕES ou (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA) ou MAIS UM TEXTÃO DE FACEBOOK
Mariana Cartaxo
Ontem o Brasil presenciou um movimento nunca antes visto de pessoas, com uma postura claramente anti-governista, nas ruas. É muito fácil condenar todo o movimento porque as pessoas chatas da sua academia foram, ou porque aquela velha briguenta do quinto andar tem um adesivo de "A culpa não é minha eu votei no Aécio" grudado no carro. É muito fácil você colocar todo movimento em algumas categorias retrógradas e ignorar tudo o que está acontecendo.
O Brasil ainda tem uma experiência muito nova com a democracia. Isso, somado à péssima qualidade do ensino (público e particular) leva a um esperado desconhecimento das instituições públicas e do jogo democrático. A falência da governabilidade e do próprio modelo petista de governo leva as pessoas a recorrerem a pontos ultrapassados - ditadura, anticomunismo, antibolivarianismo, nacionalismo etc - como solução para os problemas estruturais do país. A presidência, como a personificação do governo é o foco dos ataques, em uma crença desgarrada que um impeachment seria a resposta para todos os problemas do Brasil.
Talvez o mais característico seja o fato de que um movimento organizado em torno de uma pauta superficial, "contra tudo que tá aí", conseguiu tirar pessoas, que até então não se engajavam politicamente, de casa para se organizarem em um ato político. Ato que, querendo ou não, alcançou ampla magnitude, não só das elites como também das parcelas menos privilegiadas da população.
É muito mais fácil você aderir a um movimento amplo do que se engajar em alguma das pautas bem delimitadas e bem estruturadas que há muitos anos os movimentos sociais tentam colocar para frente. Mas, quem sabe, o problema também venha da forma como os grupos estão se organizando no presente momento, afastando as pessoas, e nisso incluo eu mesma, da confusão dos movimentos estudantis, ou das brigas de sindicatos e movimentos sociais. Às vezes as discussões são tão distantes que se destacam do dia-a-dia das pessoas, criando um pequeno grupo cheio de jargões e que dificilmente tem abertura para novas pessoas.
No mais, admito que no primeiro momento fui contra essas manifestações, mas, pensando melhor, acredito que elas sejam um momento importante para a nossa democracia. Apesar das placas em favor da ditadura, o que se tira do movimento é um pedido de revisão das instituições, limpeza no aparato público e renovação dos políticos. Talvez eu seja inocente, talvez eu seja otimista, mas eu vejo um sopro de mudança nesse movimento, que, mesmo tosco e incoerente mostrou que existem formas de se descontentar com o governo e pedir mudanças sem ser apenas postando coisas bravas no Facebook. Isso pode caminhar para uma nova cultura de manifestação política no Brasil, o que é bastante positivo.
É preciso, porém, que se repense a maneira como os movimentos políticos estão colocando as pautas, com cuidado para que os setores mais conservadores da sociedade não ganhem espaço, o que vem acontecendo nas últimas eleições. Antes de criticar o eleitor mediano e dizer que ele é inerentemente conservador, é preciso repensar a forma como as pautas progressistas estão chegando nele, e como ele está absorvendo as informações. É um trabalho difícil, com certeza, mas não impossível.
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