Alamanaqueiras: ou não queiras.

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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Narciso acha feio o que não é espelho.

É legítimo pedir ‘indiretas’ e preparar o país para eleições gerais em 2018

Ideal seria escolha direta e Consituinte já
Mas cenário político pede mais debates
O Congresso NacionalValter Campanato/ Agência Brasil - 13.mar.2012
 - Poder 360

O AVESSO DO AVESSO
Narciso acha feio o que não é espelho. É o que nos diz Caetano, poeticamente, em Sampa.
Há um ano a turma que ascendeu ao poder num golpe de sorte por ter encontrado pelo caminho uma antagonista debilitada para a luta pela ausência de intimidade com os estratagemas da política sentia-se nos píncaros da glória. Vi-os saltitantes e animados em solenidade no 3º andar do Palácio do Planalto, onde toda a parede de fundo é tomada por amplos espelhos. A ideia de Oscar Niemeyer ao planejá-los ali era, além de projetar a Praça dos Três dos Poderes para dentro da sede do Executivo, levar aos inquilinos transitórios do Planalto um convite a que refletissem suas convicções e projetos ante o próprio reflexo dentro do Palácio.
Naqueles tempos, já tão distantes, o verbo era fácil. Da boca para fora falava-se em “governar para conciliar” a Nação. Extasiada e unida em torno do troféu que adornava a parede –a cabeça da presidente Dilma Rousseff, deposta ao cabo de um processo para-legal urdido dentro do Parlamento e construído como consenso (que nunca houve) dentro do establishment– a mídia tradicional dava curso àquela platitude de conciliação.
Hoje, com 2,6 milhões de brasileiros desempregados a mais somando um estoque de quase 14% de nossa força de trabalho fora do mercado; com o crescimento do país estagnado e contemplando um soluço do Produto Interno Bruto no 1º trimestre, que não deve se repetir no fechamento do 2º trimestre de 2017, a intrépida trupe que adorava se ver avexada no 3º andar do Planalto já não se mira mais nos espelhos dali: teme olhá-los e flagrar a si mesmos como borrões dos mal traçados discursos pronunciados em passado recente.
Ao contrário das palavras vãs pronunciadas nos discursos de intenções jamais postos em prática, o que não existe é pacificação no horizonte da política. No Congresso Nacional a frágil base parlamentar unida em torno do governo está dispersa numa diáspora que só começou. Vai rachar ainda mais nos próximos dias. A agenda das reformas trabalhista e previdenciária, encaradas como pedra-de-toque para fazer a economia voltar a rodar foi corretamente sequestrada do Executivo pelos presidentes do Legislativo, Rodrigo Maia e Eunício Oliveira, para que andassem de fato como projetos nacionais –e não como expressão da vontade de um governo que se esvai.
O espelho d’água do térreo do Palácio do Planalto virou trincheira e os gabinetes por trás dos espelhos do 3º andar palaciano, casamatas. É dali que uma divisão derradeira daquilo que se projetou um exército tenta conservar o poder à revelia da crescente perda de identidade, credibilidade e respeito. Até mesmo a mídia tradicional, que lhes dava ouvidos e os levava a sério há um ano, dispersou-se e desonerou a união. Consenso já não há.
Caetano, ainda em “Sampa”, diz que chamou “de mau gosto o que vi/ de mau gosto o mau gosto”. E que “a mente apavora o que não é mesmo velho”. Ao cantar a São Paulo que deslumbrava os Novos Baianos o esteta –sim, Caetano Veloso o é– definia no passado o que se deslinda agora em Brasília. Há mau gosto, no mínimo. E pavor, pânico, daqueles que detêm o poder presente em se reconhecerem já velhos –já passados. Estão na antessala da História, e nelas entrarão como nota de rodapé. Nota ácida, cruel, desabonadora para qualquer biografia. Mas não as escreveram. Redigiram prontuários com os próprios punhos ao desrespeitar os ritos dos cargos que ocupam ou ocuparam. Não o fizessem por merecimento, pois não os conquistaram por méritos legítimos, ao menos o tivessem feito por apreço a si mesmos. Nem isso o fizeram.
No próximo domingo, na São Paulo que o baiano cantou por paixão arrebatadora àquele momento, haverá um reencontro entre a utopia e a realpolitik. É o ato que pedirá Diretas Já.
Não resta dúvida, ao menos para mim, de que a melhor solução para a crise de representatividade do Brasil de 2017 seria um consenso nacional em torno da abreviação dos mandatos públicos –de todos eles– e a convocação de eleições gerais. Deveríamos pensar em eleger, inclusive, uma Assembleia Constituinte para repactuar o país com os anseios dos brasileiros. Uma campanha dessa dimensão poria a Nação num divã continental. Suportaríamos isso. Atingimos essa maturidade. Contudo, é utópico crer estarem dadas as condições reais para tal processo.
Ao assumir seu 1º mandato como presidente da República Fernando Henrique Cardoso disse que “governar é a utopia do possível”. Dentro de pouco mais de um ano o Brasil irá às urnas no pleito previsto de 2018. Há que se organizar o debate nacional em torno das grandes pautas que se fazem necessárias à modernização da sociedade. Há carência real de lideranças pacificadoras no Legislativo e no Judiciário –e essa liderança tem de ser fazer presente no Executivo. Hoje, não há. Contemplando a realpolitik, porém, mesmo muitos daqueles que irão expressar com legitimidade e fé o credo nas Diretas Já nas ruas paulistanas devem abrir uma porta para aceitar o debate em torno do desfecho previsto na Constituição de 1988: a eleição indireta do sucessor de quem já foi, mas ainda não saiu.
A ascensão do grupo que ainda ocupa o Planalto careceu de legitimidade, embora se possa dizer que ocorreu com vernizes de legalidade. A troca do comando, com a chegada de um grupo que organize o debate em torno da agenda de 2018 e conserve uma unidade mínima no Parlamento e seja o fiador de diálogo franco entre os 3 Poderes associa a legalidade do processo a uma legitimidade de procedimentos que não se vê no momento. Seria o “avesso do avesso” antevisto em Sampa. O avesso do avesso, por lógico, é o direito.

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