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segunda-feira, 19 de junho de 2017

A esperança é que, tentando se livrar, Temer livre todo mundo.

Governo Temer parece ter ficado mais forte à medida que perdeu a vergonha 

Celso Rocha de Barros 



Bom, se alguém tinha alguma dúvida, Joesley Batista, na "Época", e Lúcio Funaro, na "Veja", disseram com todas as letras que Temer era uma peça importante no esquema de corrupção do PMDB da Câmara. Se alguém disser que teve um infarto com o susto da descoberta de que Temer é picareta, sugiro checar se o colesterol já não estava alto.

Agora a questão é saber se as denúncias derrubarão o presidente. Um fim de semana como este último teria derrubado Dilma, Lula ou mesmo FHC. Mas, até aí, o áudio do Joesley também teria. Se algum dos predecessores de Temer fosse pego como Temer foi, o máximo que poderiam ambicionar daí em diante seria a presidência do Boa Esporte durante a liberdade condicional.

E, no entanto, desde que as denúncias começaram, Temer não só não caiu como foi absolvido por Gilmar no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Agora torce para que as denúncias da PGR (Procuradoria-Geral da República) cheguem logo à Câmara para que Rodrigo Maia as mate no peito.

Na verdade, o governo Temer parece ter ficado mais forte à medida que perdeu a vergonha.

Para os políticos e empresários com medo das delações (das que já aconteceram e das que ainda podem acontecer ), não há qualidade maior em um presidente da República do que medo da polícia. A esperança é que, tentando se livrar, Temer livre todo mundo.

Em entrevista recente à Folha, Temer disse que muita gente havia gostado de seu discurso pós-Joesley, dizendo "Agora sim, temos presidente". Para quem pensou que esta "muita gente" fosse a população em geral, pareceu absurdo. Não acho que fosse.

E Temer também é beneficiado pelo próprio desastre. Afinal, o impeachment de Dilma Rousseff deixou como lição que nem sempre vale a pena substituir um governo impopular por seja lá que malandro for o seguinte na lista de sucessão.
Enquanto isso, Temer procura um novo PGR para substituir Janot, que vem recebendo ataques da turma chapa-caucasiana. Dadas as características que Temer procura em um novo PGR, o nome mais indicado parece ser o do traficante mexicano "El Chapo", que recentemente supervisionou com sucesso a construção de um túnel ligando sua cela a um lugar suficientemente longe.

O mais difícil, no momento, é saber de onde pode vir a reação. Enquanto ela depender dos pequenos Rede Sustentabilidade e PSOL, Temer está em casa. Os empresários fazem ruídos de desaprovação mas parecem topar mais ou menos qualquer coisa em troca das reformas. Nenhum dos grandes partidos ficaria muito triste se Temer conseguisse parar a Lava Jato. Nossos outsiders, Doria e Bolsonaro, estão fazendo exatamente o que Temer gostaria que todos fizessem: falando de outra coisa.

É nessa hora que malucos e aventureiros de caráter duvidoso aparecem dando sugestões utópicas. Eu, por exemplo, tenho uma sugestão utópica.

O que eu acho que deveríamos fazer é o seguinte: negociar, dentro da sociedade civil, sindicatos de um lado, patrões do outro, um ajuste fiscal socialmente aceitável. Que venham para a conversa os outros movimentos sociais, as igrejas, os intelectuais, todo mundo. Se chegássemos a um acordo sobre como dividir a conta do ajuste, três quartos da polarização atual morreriam na hora.

E nenhum dos picaretas conseguiria sobreviver 15 minutos sem os radicais do seu lado fazendo barulho para acobertar sua fuga. 

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