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terça-feira, 23 de maio de 2017

Temer tem dedicado todo o seu tempo e energia para explicar o inexplicável

A clareza dos fatos 

Marcelo Calero

Temer tem dedicado todo o seu tempo e energia para explicar o inexplicável

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O mecanismo contido no artigo 86 da Constituição Federal é aquela ferramenta que existe para não ser usada. Imaginar, em nosso sistema presidencialista fortemente centralizado, que a figura de nosso mandatário possa ter alguma sobrevida política em meio a uma investigação contra si, é tão ingênuo quanto achar que nossos atuais líderes farão a reforma política de que o país realmente precisa. A excepcionalidade absoluta do dispositivo explica o fato de ser esta a primeira vez em toda nossa história que temos um presidente na condição de investigado.

Revelado o conteúdo da delação da JBS, Michel Temer tem dedicado todo o seu tempo e energia para criar versões rocambolescas para explicar o inexplicável. Desde o encontro na calada da noite com empresário objeto de múltiplas investigações, passando pela mala contendo meio milhão de reais recebida por homem de sua “extrema confiança”, até a delação propriamente dita, que relata mensalinhos e outros obséquios, tudo é muito claro para aqueles que estão na planície.

Fornecer versões rocambolescas, no entanto, é coisa normal para um presidente que atua como legítimo representante da velha política. Quando revelei, em depoimento à Polícia Federal, sua participação na tentativa de atender a um interesse pessoal de seu amigo Geddel Vieira Lima, Temer saiu-se com a tese de que mediava conflito entre ministros. Em nome de uma pax, que hoje vemos ruir, o establishment tapou o nariz, aceitou a cortina de fumaça criada pelo presidente — roteiro, que, aliás, ele repete —, e seguiu-se em frente.

O que se revela, seis meses depois, é que a prática faz parte, no entendimento do Ministério Público, de um triste repertório de promiscuidade entre o público e privado e transações escusas envolvendo exorbitantes volumes de recursos financeiros.

Os recentes episódios mostram, também, que certas forças políticas, embora forcem ares de modernidade, operam, de fato, em favor do atraso. É especialmente patética a posição do PSDB diante dos últimos acontecimentos. Defender Aécio Neves e seus diálogos autoexplicativos, permitindo, inclusive, que ele apenas se licenciasse da presidência do partido, reforça que todas as legendas têm seus “corruptos de estimação”. A patetada continua na manutenção de apoio ao igualmente indefensável Temer e seu governo moribundo.
Muitos esperam um “gesto de grandeza” do atual presidente. Mas, honestamente, como esperar um gesto de grandeza de alguém que se presta a práticas tão baixas como um encontro clandestino com empresário investigado em porões de palácio oficial? Como esperar gesto de grandeza de alguém que conserva em suas fileiras o que há de pior em nosso deteriorado cenário político?

O que nos cabe, enquanto cidadãos de bem, é não permitir que, mais uma vez, prevaleçam as versões arranjadas. Somente nossa indignação e mobilização permitirão não apenas a real transformação política que tanto ansiamos, mas, sobretudo, a construção de um país verdadeiramente democrático e justo.

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