Alamanaqueiras: ou não queiras.

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sábado, 24 de dezembro de 2016

O meu Jesus Cristo, afinal, é o jesuscristinho dos presépios mais precários, das bandinhas de pastoris e lapinhas do Nordeste,

Luiz Antonio Simas

PEQUENINO

Não sou cristão. Além disso, sou um ressabiado crítico de instituições religiosas de todos os matizes. Não obstante, ritualizo a vida e insisto em lançar sobre as festas populares um olhar afetuoso, sobretudo quando percebo que, onde amiúde campeia a escassez, as celebrações reconduzem o homem ao intangível, ao encantamento, ao espanto diante do que não pode ser racionalmente mensurado no mundo e, por conseguinte, nos humaniza radicalmente. É por isso que lanço sobre Jesus Cristo - não ao Messias, mas a um dos mito incontornável em todas as dimensões subjetivas que ele pode alcançar - um olhar carinhosamente humano.



Jesus Cristo transformou, afinal, água em vinho. Nunca transformou vinho em água. Fez isso, não custa lembrar, para não acabar com a festança da turma. Disse também, no jantar com o fariseu escroto, que o mal nunca é o que entra, mas o que sai da boca do homem: não fez distinções à mesa e quebrou todos os tabus alimentares (aqui tenho que confessar certa inveja: os tabus alimentares do xambá - religião em que cresci - não são moles).

O problema, para mim, é que tem cristão que insiste em transformar o barba em um chatonildo, inimigo dos fuzuês, dos birinaites e das alegrias. Cristo (o meu) era um farrista do bem, não era um carola enxabido ou um pregador insulso. É por isso que eu me amarro no Jesus da Nazaré que me parece ter sido filho de Ogum (aquela porrada que ele enfia nos vendilhões do templo é clássica reação dos filhos do orixá guerreiro).

É por isso, ainda, que sou do cristianismo popular: bebo e compartilho da boa mesa com os meus amigos e camaradas e com qualquer um que seja gente de bem. E não sento em mesa de bar - um templo - com fariseus que queiram ditar regras e impor grosseiramente suas verdades.

Costumo, por conta dessas coisas, me comover profundamente com as festas cristãs: o Círio de Nazaré, em Belém do Pará, pela vitalidade que preserva; a Festa da Penha, no Rio de Janeiro, pelo que representou para o povo da cidade; as festa de junho e o ciclo da Natividade. Nestas festas, os cantos, louvores, comidas, leilões de prendas, namoros, cheiros, dádivas e bordados, falam de afetos celebrados que permitem a subversão- pelo rito - da miudeza provisória da vida.

O meu Jesus Cristo, afinal, é o jesuscristinho dos presépios mais precários, das bandinhas de pastoris e lapinhas do Nordeste, dos enfeites formosos das moças dos cordões azul e encarnado e das folias que alumbram de brasilidades os fuzuês que, no mês de janeiro, homenageiam - entre cachaças, cafés e bolos de fubá gentilmente servidos pelos donos da casa - os Reis do Oriente.

Ele, o Cristo dos meus delírios, se sentiria mais a vontade em um botequim de esquina do que na Basílica de São Pedro. Se manifesta mais nas mãos calejadas dos devotos do Círio do que nas batinas sacerdotais e nos ternos bem cortados dos condutores do bonde da aleluia. Deve respeito - e é respeitado - a Tupã, Zambiapongo e Olorum. Estaria hoje ao lado dos fodidos que não tem Natal.

Meu Cristo, enfim, é um pequeno; pedrinha miudinha. Joga na várzea, bebe nos subúrbios, rala nas fábricas e, quando o sol vai quebrando lá pra fim do mundo pra noite chegar, descansa feito João Valentão e adormece como menino brasileiro.

A vista não pode alcançar as belezuras de suas miudezas.

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