Alamanaqueiras: ou não queiras.

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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Nem precisava pedir algo para a conversa ser interpretada como interferência indevida. Qualquer néscio a teria entendido assim

Cultura e patrimônio 

editorial folha 

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O provável é que nunca se venha a conhecer o que de fato disseram os então ministros Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo) e Marcelo Calero (Cultura) na conversa sobre o edifício La Vue em Salvador, pivô da demissão do segundo. Como não há gravação do encontro, só se saberá ao certo que ele não foi bem republicano.

Calero, hostilizado por parte do meio artístico pela condição de ministro do presidente Michel Temer (PMDB), sai por assunto relacionado com a própria pasta, não com a esfera policial (como foram os casos de outros três).

O demissionário se recusou a interferir em decisões de órgãos de defesa do patrimônio cultural que vetaram 17 dos 30 pavimentos do prédio na Barra soteropolitana.

Geddel firmou compromisso de compra de uma unidade do edifício da construtora Cosbat, em andar acima dos 13 autorizados (para não interferir com a paisagem e o conjunto arquitetônico da Barra).

Prevalecendo a decisão do Iphan federal, que reverteu aprovação do congênere baiano, Geddel ficaria sem sua vista para o mar.

Um dissabor considerável para o ministro, reconheça-se; melhor dizendo, para o cidadão Geddel Vieira Lima. Até as pedras da ladeira da Barra sabem que a aquisição do imóvel nada tem a ver com o cargo público que ele ocupa. O peemedebista, contudo, não vê a questão por esse prisma.
Geddel admite que tratou do assunto privado com Calero. O propósito, alega em entrevista à Folha, era fazer "ponderações" sobre "um assunto que está judicializado". Nega, porém, que o diálogo tenha sido uma forma de pressão, conforme a denúncia de Calero.

Eis aí o cerne do problema: o político da Bahia parece considerar normal abordar uma questão patrimonial com um agente público, o ministro da Cultura. Nem precisava pedir algo para a conversa ser interpretada como interferência indevida. Qualquer néscio a teria entendido assim, tanto mais um diplomata de carreira como Calero.

Não é essa a cultura política brasileira, já se sabe: negócios privados e públicos costumam misturar-se com frequência indesejável. Tanto é assim que Geddel admite ter relação próxima com o dono da Cosbat, embora descarte conflito de interesses ao interceder por si próprio e pelo amigo na jurisdição de outro ministério.

Nesta altura do imbróglio, as convicções republicanas de Geddel pesam pouco, pois já se evidenciou quanto valem. Importa é saber se as compartilham o presidente Temer e a Comissão de Ética da Presidência da República.

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