Alamanaqueiras: ou não queiras.

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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

É mais do que um bom debate, é um debate urgente é necessário.

  
Luis Felipe Miguel


Ainda não terminei de ler As contradições do lulismo, volume organizado por André Singer e Isabel Loureiro, mas já posso recomendá-lo como leitura imprescindível. Apresenta um panorama amplo de interpretações da experiência petista, cuja compreensão é crucial para reconstruirmos os caminhos da esquerda no Brasil. Os textos foram escritos antes da derrubada de Dilma, mas quando seu governo já estava nas cordas e o desfecho já estava no horizonte.


Nada que afete sua atualidade, fora algumas observações pontuais - não sei, por exemplo, se Ruy Braga hoje repetiria sua aposta de que "contraditoriamente, o impeachment ... fortalecerá o próprio PT".

Não sendo um livro sobre o golpe, mas sobre o lulismo, seu foco está nas políticas de governo e nos interesses que se procurou servir ou acomodar. A diversidade de perspectivas é um dos méritos do volume. Os dois capítulos que o abrem servem de exemplo.

André Singer entende que o elemento central da crise do lulismo foi a tentativa, levada a cabo por Dilma no começo de seu primeiro mandato, de fazê-lo avançar, enfrentando o rentismo e promovendo o que ele chama, prudentemente, de um "ensaio desenvolvimentista". É o momento da queda de braço com o sistema financeiro e da redução na taxa de juros. O ensaio não se sustenta devido a divisões no próprio governo e a reações dos rentistas. Singer também anota agora a incapacidade de mobilização popular, que é uma característica do lulismo cujas consequências ficaram nítidas na crise. Mas, sobretudo, deu errado porque não foi capaz de angariar o apoio daquela que seria sua grande beneficiada, a burguesia industrial, quer por suas vinculações com o capital financeiro, quer por seu temor diante de um governo que se mostrava capaz de orientar eficientemente a economia. Em suma, teríamos a reencenação da tragédia permanente da esquerda brasileira: ela prepara tudo, mas a burguesia sempre falta ao encontro.
Na narrativa de Singer, as manifestações de junho de 2013 são descritas como um "inesperado reforço proveniente das ruas" ao cerco rentista. Para Ruy Braga, porém, elas evidenciaram os limites das políticas sociais petistas. No mercado de trabalho, ampliou-se a formalização sem diminuir a precarização; nos programas sociais, permaneceu a lógica da transferência do fundo público para grupos privados. Políticas como a ampliação do acesso ao ensino superior são lidas, por Braga, como formas de regular o conflito capital-trabalho, como se o trabalhador aceitasse salários baixos e condições indignas na medida em que o acesso à educação representaria uma possível porta de saída futura. É esse modelo que se rompe em 2013. Dilma permanece com o apoio da elite sindical, incorporada nos cargos do governo e contraditoriamente aliada ao rentismo por sua participação na gestão dos fundos de pensão (o "ornitorrinco" da incontornável contribuição de Chico de Oliveira), mas a massa dos trabalhadores precários se solta. Rompida a base do governo, está aberto o caminho para o avanço da direita.

É mais do que um bom debate, é um debate urgente é necessário. O livro organizado por Singer e Loureiro é uma contribuição importante a ele.

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