Almanaqueiras: ou não queiras.

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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

que hoje tenha fim o jeito cunha de se fazer política.


Pedro Abramovay

É difícil ter estado em Brasília na última década e não ter histórias com Eduardo Cunha pra contar.No meu caso, sempre de confronto com ele.Hoje lembrei de uma antiga. Não é uma história escandalosa, mas lembra as sutilezas sobre as quais se constuiram esse personagem macabro. 
Era 2008. Ele não era ainda tão poderoso. Era Presidente da CCJ. 

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O governo estava apoiando um Projeto de Lei que descriminalizava o aborto. 

A maioria dos Presidentes da CCJ em um caso assim, deixariam o projeto na gaveta. Tema polêmico. A posição dele era contrária à do governo. 

Mas Cunha já tinha esse estilo diferente de tudo que eu conhecia em Brasilia. 

Ele não só quis pautar logo como assumiu a relatoria do projeto. Para poder rejeitá-lo, claro. 

Fui chamado para uma audiência pública sobre o projeto. Como Secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, fui defender a descriminalização do aborto, apoiada pelo governo. Debora Diniz compartilhava minha posição. Do lado contrário, contra a descriminalização, a então presidenta do PSOL, Heloisa Helena e o procurador do Estado do Rio Paulo Leão.

O debate foi quente. Mas o que me marcou foi a frieza e uma espécie de dissimulação de Eduardo Cunha.

O tempo inteiro Cunha fazia questão de marcar sua imparcialidade, e, ao mesmo tempo, deixava escapar, propositadamente, que ela não era real. Ele dizia que já tinha posição sobre o assunto, mas que respeitaria o direito das posições contrárias se manifestarem. Ele era relator, presidente, controlava tudo, não havia nenhum espaço para debate real. Mas ele reiterava sempre, como que para afirmar seu contrário, que ele estava garantindo o debate.

No início da minha fala, um deputado da bancada religiosa, me interrompeu. Gritando, me insultando. Cunha, frio como sempre, pedia para o deputado não fazer isso, como que dizendo "você não percebe que tudo isso é uma farsa? Deixe o menino falar".

Brasília tem muito cinismo. Mas eu saí daquela audiência com a sensação de que aquele era um tipo novo. Mais perigoso e mais autoritário do que eu estava acostumado. 
O resto da história vocês conhecem. 

Espero que hoje Cunha seja condenado. E que sua condenação ajude a enterrar o jeito Cunha de se fazer política.

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