Almanaqueiras: ou não queiras.

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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

"Plante e coma, senão o governo toma!".


Wilson Gomes

Ouvindo a menina explicar à repórter que pichava porque este era "único meio para enfrentar o sistema" me veio à mente o meu fugaz passado de pichador-revolucionário. Envolveu um mês de planejamento, segredo, providências. Para tudo se resolver numa noite, quando eu tinha dezesseis anos. Pichei gostosa e revolucionariamente o muro do Colégio Presidente Médici com a frase "Plante e coma, senão o governo toma!". Com exclamação e tudo, num azul escuro bonitão.

Resultado de imagem para pichação contra a ditadura

Infelizmente, tive que encerrar a minha carreira de pichador-revolucionário. Primeiro, o fato de ninguém ter entendido as verdades que estampei naquele muro insurgente me deram a firme certeza de que levava mais jeito para trocadilhos infames e "ordinariedades" (arte que pratico desde então) do que para a conscientização das massas contra o sistema. Era uma irreverência subversiva contra o lema da campanha do governo de Figueiredo ("Plante que o João garante"), mas o meu destino de rebelde incompreendido já havia sido selado naquele momento.

Além disso, morri de vergonha com a reação da massa proletária (quer dizer, os meus colegas de colégio) no dia seguinte, lamentando que alguém tivesse sujado as paredes da nossa escola. Gaguejei uma explicação de que aquilo era altamente revolucionário e que iria balançar o governo militar, as multinacionais (as odiávamos, então) e o sistema. Não adiantou, era obra de um porcalhão delirante e ególatra, estragando uma coisa que era de todo mundo.

Pronto. Nunca mais tentei derrubar sistemas, ainda mais pichando. Poderia hoje ser um revolucionário-pichador, mas em vez disso virei este cínico relutante que vos atormenta. O destino, amigos, é coisa séria. Um beijo.

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