O mistério dos R$ 10 mil encontrados debaixo do piso do TCU
Gabriela Valente - O Globo
RIO — Quando o funcionário do Tribunal de Contas da União (TCU) começou a arrastar móveis para uma pequena reforma na Secretaria de Controle Externo do Tocantins (representação do órgão no estado) nem imaginava que estava prestes a achar um tesouro. Sua missão era instalar tomadas e passar a fiação de telefone para novas mesas e estações de trabalho. A mudança na sala serviria para abrigar mais técnicos responsáveis pelo combate à corrupção com verbas federais no estado. Bastou levantar parte do piso elevado para encontrar um pacote com nada menos que R$ 10 mil.
— Afinal, a coisa mais estranha que técnico do TCU já tinha encontrado por aí era um sutiã perdido na repartição — brinca uma alta fonte da instituição, intrigada com a descoberta.
O funcionário responsável pelos cabos telefônicos tomou o susto diante de vários colegas boquiabertos. Melhor para ele. São testemunhas oculares de quanto dinheiro saiu do buraco. E podem advogar a favor do trabalhador, já que nos corredores do tribunal circularam boatos inflacionários de que o pacote continha R$ 70 mil.
A cena ocorreu em julho deste ano. E não foi flagrada por nenhuma câmera, porque só há equipamentos de vigilância nos corredores e na entrada do prédio em Palmas. A sala da secretaria de controle externo está fora da segurança eletrônica.
Para deixar o achado em segurança, o chefe da seção Carlos Eduardo Dias trancafiou o rico pacote no cofre da repartição. Tentou pedir uma audiência com os superiores, mas a chefia estava em férias. Quando, enfim, conseguiu agendar um encontro, pegou um voo para Brasília para explicar pessoalmente o ocorrido tim-tim por tim-tim.
Quase um mês depois, no dia 22 de agosto, o fato foi comunicado oficialmente ao TCU. Na mesma data, de acordo com fontes do tribunal, foi aberta uma sindicância interna para tentar descobrir o que todos que conhecem a história querem saber: de onde veio o dinheiro?
Cada um dos três secretários-gerais da corte de contas indicou uma “pessoa de confiança” para tratar sigilosamente o assunto. A princípio, nada foi informado à Polícia Federal. A avaliação interna é que não seria preciso, pois achar um pacote de dinheiro escondido no contrapiso “não é indício de crime”.
Questionado pelo GLOBO, o Tribunal de Contas da União informou, por meio de nota, que assim que o presidente Augusto Nardes tomou conhecimento do inusitado fato determinou a apuração de eventuais responsabilidades. E que o procedimento, num primeiro momento, era abrir uma sindicância interna. O argumento é que esse era o trâmite para averiguar ocorrência de infração disciplinar, pois, legalmente, esse tipo de apuração é privativa do órgão. “Após as diligências necessárias, a comissão não vislumbrou a ocorrência de nenhum ilícito penal ou administrativo”, dizia a nota.
A assessoria de Nardes informou ainda que o numerário continua guardado no cofre da secretaria de Tocantins, caso seja necessária alguma perícia. Após ser procurado pelo GLOBO, o TCU informou que pediu à Polícia Federal que entre no caso e tente descobrir o dono do tesouro.
— O TCU fez investigação interna, ouviu as pessoas. Repassamos o caso para a Polícia Federal. Se forem identificados culpados, tomaremos as providências necessárias — garantiu o presidente do TCU, Augusto Nardes.
A PF terá que instaurar um inquérito e começar a ouvir os servidores. Do primeiro a achar o pacote aos que frequentavam a sala. Não será tarefa fácil.
Enquanto se tenta descobrir o dono do dinheiro, a história aguça a curiosidade dos servidores. Há quem se pergunte se há mais pacotes de dinheiro escondidos pelo prédio em Palmas. E várias hipóteses para tentar solucionar o caso são levantadas. Uma, por exemplo, tira o foco dos funcionários públicos: os R$ 10 mil poderiam ter chegado ali na época da construção do prédio para, por exemplo, pagar propina a fiscais da obra.
Essa ideia seria uma das poucas cogitadas que não envolvem diretamente os servidores antigos e atuais, já que eles estão ali desde a inauguração do prédio. O TCU foi o primeiro e único órgão a ocupar o edifício. A ordem dentro do tribunal é não comentar o caso. Pelo menos, até a sigilosa investigação terminar.
—Isso está sendo conduzido por Brasília — limitou-se a dizer Carlos Eduardo Dias, o chefe da seção de Tocantins, quando procurado pelo GLOBO.
A apuração é difícil. Além da falta de câmeras na sala, há outros empecilhos. O dinheiro não é novo. Não está “cintado” com aquela fita de papel que separa as pilhas de cédulas quando saem novinhas dos bancos. Quem viu fotos sigilosas do pacote conta que são notas que estavam em circulação e, por isso, não teriam números de série em sequência.
E é justamente isso que deixa quem está a par das investigações muito pessimista. Ninguém dentro do tribunal acredita que o dono dos R$ 10 mil será encontrado.
— Não nos parece uma coisa fácil de identificar: se o dinheiro é do servidor ou de um fiscal da obra — afirmou um funcionário do TCU.
Se não acharem o proprietário do pacote, os recursos já têm destino certo. Serão depositados na conta do Tesouro Nacional. Para o governo federal, não é muito.
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