Almanaqueiras: ou não queiras.

Almanaqueiras: ou não queiras.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

‘Gonzagão - A lenda’ emociona o público em Exu

Musical de João Falcão foi apresentado pela primeira vez na cidade natal do sanfoneiro, em Pernambuco

Trajetória do Rei do Baião é passada a limpo no musical Foto: Divulgação/ Solange Macedo


Letícia Lins - O Globo

RIO - A pequena Exu, cidade pernambucana de pouco mais de 30 mil habitantes, mobilizou-se no último fim de semana para ver, pela primeira vez, o musical “Gonzagão — A lenda”, em homenagem a um de seus filhos mais ilustres, morto em 1989. O sanfoneiro, mote do Festival Pernambuco Nação Cultural — Viva Gonzagão, que aconteceu do dia 6 de dezembro até domingo, levou mais de mil pessoas a cada uma das sessões do espetáculo dirigido por João Falcão, no sábado e no domingo. Muitas delas, aliás, assistiam a uma peça de teatro pela primeira vez. 

O público cantou, chorou, aplaudiu e reviveu cenas marcantes da vida do “rei do baião”, que teria completado 101 anos no último dia 13. Ninguém nem reclamou da iniciativa do diretor de rebatizar duas das mulheres importantes da vida de Gonzagão, Nazarena (primeira namorada) e Odaléa (mãe de Gonzaguinha), que no palco viraram Rosinha e Morena, nomes que aparecem nas músicas do compositor. A sertaneja Maria de Fátima Moreira, de 59 anos, inicialmente não entendeu a troca. Mas ao final já tinha assimilado a licença poética do diretor:

— Só fiquei triste de não ouvir o nome de Nazarena, que era irmã de minha mãe. Não vou mentir, a família não queria o namoro, mas, mesmo assim, ele sempre manteve a amizade, ficou próximo de nós até morrer — lembrava ela, que assistiu no último sábado ao primeiro espetáculo teatral de sua vida. 

Parte da plateia chorou ao ver Gonzagão e Gonzaguinha se encontrarem no palco, quando tocam “Sangrando”.

— Desabei, lembrei de muitas coisas da minha vida e daqui de Exu. O encontro dos dois me tocou demais — afirmou a professora Aragilda Saraiva Vitorino, de 50 anos. 

Se os moradores de Exu nunca tinham ido ao teatro, o diretor nunca tinha ido a Exu. Mas, já nos ensaios, na praça da cidade, percebeu a “presença” de Luiz Gonzaga:

— Estávamos passando o som e as pessoas foram chegando, cantando as músicas dele. Todos tinham uma história para contar de Gonzaga. Até a mulher que vende munguzá em uma carrocinha referiu-se à preferência do artista por aquela comida, que ele exigia mais salgada — contou João Falcão. 

A manifestação e o interesse do público sertanejo na praça principal de Exu, a 619 quilômetros da capital, fez o diretor reforçar sua fé no teatro:

— Muita gente fala que, em um mundo tão virtual, tão digital, o teatro vai morrer. Eu acho o contrário. Quanto mais o mundo fica virtual, mais isso que a gente está fazendo, que é uma coisa rara, vale — afirmou o diretor, diante da plateia, com 1,2 mil lugares, lotada. Falcão planeja ainda levar o musical a Recife, Caruaru e Campina Grande, sempre em apresentações gratuitas. No Rio, o grupo volta a se apresentar entre os dias 9 e 26 de janeiro, no Teatro João Caetano.

Glossário de Gonzagão

Parte do vocabulário usado por Luiz Gonzaga — e ouvido até hoje no Sertão Nordestino — consta do “Glossário gonzagueano”, lançado em Recife pelo pesquisador, cantador e forrozeiro Daniel Bueno, sertanejo como o mestre, e que cresceu no meio de toadas, aboios, xotes e baiões. 

O livro tem mais de 500 páginas, reúne 2,8 mil verbetes e obrigou o pesquisador a visitar cerca de 600 músicas do cancioneiro de Gonzaga. Para reunir os verbetes, ele examinou a obra de 61 compositores, parceiros do Mestre Lua. Teve mais: encontrou 67 animais (sendo 25 aves, como sabiá, asa branca, assum preto) e 63 tipos de vegetação (entre eles, juazeiro, mandacaru, cabriúva, catolé, macaúba). 

E Daniel Bueno acredita que as 500 páginas não foram suficientes para reunir todo o linguajar divulgado pelo cantor sertanejo. Ele continua pesquisando para, em uma segunda edição, chegar a mil páginas. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário