Almanaqueiras: ou não queiras.

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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Fala, Camila. Considerações de uma Pitanga

A felicidade de Camila Pitanga não é à toa. Coincidência ou não, dias depois de surgir o debate sobre um suposto racismo da entidade máxima do futebol, a 41ª edição do Emmy Internacional, conhecido como Oscar da TV, consagrou Lado a Lado – protagonizada por ela e Marjorie Estiano – como melhor telenovela.

Sonia Racy - Estadão



Então, foi fundamental para O Duelo a experiência no Ceará?

Claro. Até porque não ficamos no litoral do Ceará, em um hotel cinco estrelas – mas em casas de famílias no sertão. Ficamos, de fato, envolvidos com o dia a dia daquela comunidade. E em toda cidade pela qual a gente passava, oferecíamos oficinas de iniciação artística. Seja de música, de teatro, de dança. Para você ter uma ideia, em Arneiroz, a banda da cidade estava desativada. Os instrumentos estavam guardados. Conseguimos que os jovens, que já tocavam, reativassem a banda. Não é que a gente ensinou tudo, já tinha um movimento artístico ali. O bacana era que a gente podia trocar ideias. E, com o advento das manifestações em junho, período em que estávamos lá, também estávamos nos manifestando. Éramos porta-vozes do que estava acontecendo no Rio, em São Paulo, Belo Horizonte. Trocávamos ideias a respeito disso e também tentávamos compreender quais os problemas daquela região. Quando falo do meu desejo de conhecer o Brasil, é disso que estou falando: de estar nos lugares sem filtro, conhecer no corpo a corpo, na troca. A gente queria estar ali, conhecer, de fato, as demandas daquela terra. E não como um grupo que quer catequizar e mostrar o que sabe.

Nesse processo, você, que é uma pessoa bastante politizada, viu o caminho de mudanças para o País?

Eu estava muito calcada na imagem, que ainda é forte, do sertão como uma terra precária e sem perspectivas. Fui lá e acho, sinceramente, que, com o advento do Bolsa Família, a dignidade está ali. Eu vi. Ninguém me disse. Não vi miséria e andei por lá. Passamos por cidades muito pequenas e, durante os deslocamentos de uma cidade para outra, não vi miséria. Podem questionar e discutir muitos aspectos da política atual – e eu sou também crítica. Mas houve uma mudança nesses últimos dez anos. Ouvi depoimentos de pessoas que viveram o antes e o depois. E há uma grande diferença. As pessoas têm autoestima e estão tendo uma qualidade de vida que não tinham antes. Eu vi.

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