O Príncipe, 500 anos de um clássico maquiavélico
Caio Blinder

Eu devotei duas colunas (a segunda foi apenas uma coluneta) a livros do ano. Esta coluneta dominical é devotada a um dos mais importantes livros dos últimos 500 anos. Há meio milênio, Maquiavel (1469-1527) escreveu O Príncipe, um clássico da política, a obra mais traduzida do italiano para outras línguas, mais do que A Divina Comédia, de Dante.
Como diz Michael Ignatieff, O Príncipe expôs a distância entre a consciência privada e as exigências de ação pública. Passe os olhos no texto.
Ignatieff faz a resenha de quatro novos livros que nos ajudam a entender a “brutal candidez” de Maquiavel, relacionada com a ragion di stato, a razão de estado. Maquiavel não foi o primeiro pensador (ou teórico) a argumentar que a política era uma atividade implacável, exigindo dos líderes que fizessem coisas repugnantes. O chocante era a insistência de Maquiavel para que estes líderes não se incomodassem em sujar as mãos em nome do bem público.
Ignatieff, no entanto, salienta que Maquiavel, embora nao fosse um democrata, era sensível à opinião pública. Ele não era um fã da violência gratuita. O essencial era buscar um equilíbrio entre força, medo e perfídia. Maquiavel ensina que um líder guiado pela necessidade pública será menos propenso a ser cruel do que aquele guiado pela moralização religiosa. Em uma boa provocação, Ignatieff escreve que um líder que acredita ter Deus do seu lado é capaz de fazer qualquer coisa. Violência deve ser funcional. Ela serve para proteger a república, ragion di stato.
Na paráfrase, O Príncipe de Maquiavel inspira medo, amor e ódio, além de mal-entendidos, na medida em que para este sagaz homem-Renascença, de Florença, a política deve encontrar sua própria ética, seus próprios valores. É preciso desatar o nó que amarra a política à religião e a outros valores. Um dos grandes sacadores do século 20, Isaiah Berlin, observou que Maquiavel nos mostra a “necessidade de escolhas agonizantes entre alternativas incompatíveis na vida publica e privada”
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