Almanaqueiras: ou não queiras.

Almanaqueiras: ou não queiras.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O objetivo de provar que a “Donzela” era herege

O POVO COSPE NA TUMBA DOS VILÕES DE TOGA DA HISTÓRIA INQUISITORIAL

Hildegard Angel

Joana-Darc

Deixei para hoje a personagem que mais me emociona entre as grandes injustiçadas da História: Joana D’Arc.

Sobre Joana D’Arc, os céticos insistem que, no que dela conhecemos, mito e realidade muitas vezes se confundem.

Porém, por mais precisão que os pesquisadores sérios busquem, sobre quais fatos da História remota hoje contados podemos, ardorosamente, afirmar a total veracidade? (Vemos fatos recentes de tal forma modificados, retorcidos, manipulados em suas versões múltiplas, afinal…).  Ficam desses episódios antigos, quase sempre, como saldo, os símbolos e o rescaldo de sua exemplaridade.

Na história de Joana, o relato é sobre a jovem que, liderando um exército francês na batalha dos 100 anos, libertou várias cidades francesas, alegando inspiração divina, até cair durante o cerco de Compiègne. Vendida aos ingleses, ela foi condenada por heresia e queimada viva em Rouen, para anos depois ser absolvida por um novo tribunal da inquisição. No século passado, em 1920, foi tornada Santa Joana.

Conduzido pelo religioso Pierre Cauchon, o processo inquisitorial contra Joana D’Arc começou em 9 de janeiro de 1431. Os demais acusadores foram Jean le Maistre, da Ordem dos Dominicanos, Jean Gravenet, inquisidor, profundo conhecedor das escrituras, Thomas de Courceles, reitor da Universidade de Paris, e dois frades mendicantes, Martin Ladvenu e Isembard de Ia Pierre.

Muitos bispos e cardeais ingleses participaram no processo, todos eles inimigos de Carlos VII, tendo em comum o objetivo de provar que a “Donzela” era herege.

Um julgamento político, o objetivo final, ao culpar Joana, era acusar Carlos VII de recorrer aos serviços de uma bruxa. Então, Joana precisava ser culpada, precisava ser condenada, precisava ser bruxa. Dissesse o que dissesse, respondesse o que respondesse, provasse o que provasse, nada disso importava. O que importava era condenar Joana, porque a condenação ou a absolvição teria peso considerável no resultado do conflito franco-inglês.

Então, deu-se um julgamento que se tornou referência e inspiração para quilômetros de peças de teatro, poesias, tratados, textos vários, discursos, roteiros, encenações de todo o gênero, buscando repetir o absurdo em seu estado máximo de apoteose, em que tudo que Joana dissesse era interpretado de forma oposta, qualquer balbucio era grito, o mínimo gesto era amplo movimento, uma boa intenção era péssima.

Declarada culpada no processo de condenação em 30 de maio de 1431, Joana d’Arc foi queimada viva em Rouen, aos 19 anos.

Muita gente das elites, do poder e do próprio povo deve ter achado ótimo, brindado, dançado e festejado…

Hoje, vão às igrejas, rezam por ela e pedem graças à Santa.

Hoje, cospem nas tumbas dos cochons (porcos) Pierre Cauchon,  Jean le Maistre, Jean Gravenet, Thomas de Courceles, Martin Ladvenu e Isembard de Ia Pierre. Os vilões de toga da história inquisitorial.

Assim, desde a atuação de tais jurados, que, ao longo dos séculos, na ilação do nome de seu líder, Cauchon, com o cochon de porco, passaram a ser retratados e vistos como os porcos juízes da História, a Justiça, como instituição, carrega essa mácula generalizante do injustiçado que se torna santo, é condenado num tribunal indigno, em que os juízes são surdos e cegos, mas não por imparcialidade. Muito ao contrário. Surdos por impermeáveis à voz tonitruante da verdade. Cegos por usarem viseiras com os vidros da obtusidade do curto prazo.

Tais juízes vão dormir tranquilos as curtas noites da curta glória das bajulações. E perderão o sono nas longas noite do arrependimento…

Nenhum comentário:

Postar um comentário