Almanaqueiras: ou não queiras.

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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

"Construiu sua autoridade, não como ator político, mas como intelectual, que faz uso público da razão para iluminar os assuntos de governo."

Um sábio entre a direita e a esquerda Um novo livro explica como o filósofo italiano Norberto Bobbio enriqueceu a tradição liberal e incorporou a ela valores socialistas

Celso Lafer

SOCIALISTA E LIBERAL Bobbio no escritório de sua casa, em Turim, nos anos 1950. Ele foi o intelectual da mediação, por excelência  (Foto: Arq. Família Bobbio)
SOCIALISTA E LIBERAL Bobbio no escritório de sua casa, em Turim, nos anos 1950. Ele foi o intelectual da mediação, por excelência  (Foto: Arq. Família Bobbio)


SOCIALISTA E LIBERAL


Norberto Bobbio não se considerava um homem de ação, mas de contemplação. Registrou, no entanto, como de decisiva importância em sua vida a Resistência e os meses da guerra de libertação da Itália do fascismo e da ocupação nazista, de que participou ativamente. Trata-se de um tempo existencial, configurador de um “antes” e um “depois”. Esse breve tempo de vida ativa foi para ele uma oportunidade de se encontrar e de transcender a opacidade da vida privada dos anos de chumbo do fascismo. 

Norberto Bobbio (Foto: AFP)

A experiência de vida ativa foi para Bobbio e seus companheiros tão relevante que a organização política à qual ele aderiu em 1942 denominava-se Partido de Ação. Era um partido de intelectuais, inspirado no socialismo liberal, que via na guerra de libertação não uma guerra de classes, mas a antecipação de uma revolução democrática. (...)

A matriz teórica da reflexão de Bobbio é a chave para explicar sua identidade política e como ela contribuiu para a construção da sua autoridade. 

No plano político, a identidade tem duas vertentes distintas, mas complementares: a identidade coletiva e a individual. A identidade coletiva se coloca pela afirmação da semelhança; a individual, pela especificidade da diferença.

Bobbio, no plano da identidade coletiva, situa-se no campo da esquerda, ao afirmar, no correr de sua vida, a solidariedade com uma concepção do bem comum. 

No plano da identidade individual, situa-se como um “socialista-liberal”, com as tensões inerentes às dicotomias individualismo/coletivismo, liberdade/igualdade.

As tensões de sua identidade individual o levaram, como liberal, a dialogar com a esquerda na afirmação da liberdade, da democracia, da paz e dos direitos humanos, quando isso se fazia historicamente indispensável. 

Inversamente, o colapso do comunismo e a crise do socialismo levaram‑no, como socialista, a afirmar a atualidade da dicotomia esquerda-direita. A dicotomia “socialista-liberal” foi assim fecunda. Contribuiu para dar a Bobbio um olhar norteador de um juízo reflexivo prospectivo, que o capacitou a enxergar contra a corrente e de maneira correta o que era historicamente relevante nas conjunturas. 

A pertinência desse olhar e o “algo” que acrescenta à tradição liberal fizeram dele, por excelência, o sábio intelectual da mediação. 


* Celso Lafer é presidente da Fapesp e integrante da Academia Brasileira de Letras. Este é um trecho de seu livro Norberto Bobbio, trajetória e obra, recém-lançado pela Editora Perspectiva  


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