Eu tinha entre doze e treze anos e nos preparávamos para voltar de São Paulo para Cajazeiras. Caminho típico de uma família sertaneja naqueles tempos, ir e vir. No nosso caso, fomos uma vez e voltaríamos de vez, disse meu pai. Eu não queria, amava São Paulo e tinha medo da Paraíba.
Carmen Sevilla
Na escola diziam que as mulheres eram machos, que havia cactos espalhados no meio da rua e as pessoas eram obrigadas a comer alimentos como buchada, por exemplo. Também me disseram que havia sapos, rãs e lagartixas entrando nas casas. Meu imaginário construiu um lugar árido como o preconceito daquelas pessoas. Mamãe disse que se eu ficasse feliz e viajasse de bom grado, tia Mariinha, aquela que lia minha alma desde o primeiro dia que me viu e achava lindo tudo que eu dizia ou fazia, faria para mim três vestidos. Sou volúvel. Vendi-me! O preço foi bom: três lindos vestidos que minha tia preferida escolheu os tecidos, comprou-os e os costurou. Meus pais não tinham dinheiro para esse tipo de mimo. Três modelos que eu inventei junto com ela. Um rosa com renda, outro laranja com elastex no lugar onde um dia eu viria a ter seios e um estampadinho estilo cigana, que ficava caído nos ombros. Meu preferido!
Minha mais amorosa das tias disse que tudo ficava lindo em mim e eu acreditei, mesmo sabendo que era feia.
Com outras parcas roupas que o tempo cuidou de me fazer esquecer e esses três vestidos que aqueceram minha alma, entrei com minha família num ônibus e após três infinitos dias chegamos em Cajazeiras. Tia Mariinha me disse que não importava para onde eu fosse, porque a alegria estava em mim e porque era muito inteligente, e eu acreditei, porque ela havia dito! Em Cajazeiras, eu descobri que haviam mentido para mim. Era uma cidade linda, moderna, alegre.
Em cada dia que usei cada um dos vestidos me senti abraçada como se fossem os braços de minha tia a me envolver. Hoje lembrei-me dela e do quanto de tudo ela entendia: moda, decoração, culinária, ela era a mais fashion. Por isso, precisou ir tão cedo iluminar um universo paralelo melhor que este em que vivemos. Nunca escolhi um vestido sem pensar no que ela me dizia: "Carmen Sevilla, tudo fica lindo em você". Se ela falou é verdade, a minha verdade, a verdade dela e minha!
Esta não é uma postagem sobre sertão, São Paulo, preconceitos ou vestidos. É uma postagem sobre saudade e como outra pessoa ajuda na construção de nossa autoestima...
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