Almanaqueiras: ou não queiras.

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sábado, 29 de novembro de 2014

Memórias de um pai e um irmão ausentes.

O assunto


José Miguel Wisnik - O Globo




No livro de Chico, a procura pelo irmão é inseparável da demanda por atenção do pai

Na ficção pública de que se faz a cultura, Sergio Buarque de Holanda é reconhecido não só como um dos intérpretes clássicos do país e como o grande historiador brasileiro, mas como um crítico literário “dos maiores que o Brasil já teve”. Segundo Antonio Candido, combinou como ninguém “a imensa cultura geral e a erudição específica”. Vale dizer, foi um homem da totalidade e da especificidade, da história e da literatura, do país e do mundo, como só foi possível sê-lo entre aqueles que se formaram até antes da Segunda Guerra Mundial. No híbrido romance “O irmão alemão”, de seu filho Chico Buarque, o grande intelectual é transfigurado, através da lente pessoal da autoficção, no totalizador obsessivo que devora todos os livros que existem para escrever o impossível livro onde se conciliariam finalmente as partes com o Todo. Essa verdadeira entidade cultural tem um filho não-dito, gerado na Alemanha antes do casamento, o desconhecido irmão alemão do narrador, a descobrir.

Não se trata de tentar distinguir realidade e ficção como se fossem feitas de matérias radicalmente diferentes – ambas são feitas de imaginário e de simbólico. Do ponto de vista do narrador, que se chama Francisco de Hollander, seu pai Sergio de Hollander, mesmo que humanizado por pequenas marcas pessoais (os cigarros Gauloises, os óculos na testa, a indefectível tosse em dois tempos), faz figura do Grande Outro inabordável, regendo do alto da sua oficina de leitura permanente uma casa-labirinto-biblioteca cujas paredes-alicerces parecem feitas só de livros. O único ser capaz de atar as pontas materiais desse império da escritura é a mãe, Assunta, que cozinha, atende os filhos e socorre o marido encontrando nas estantes da casa os exemplares de que ele necessita na sua associação infinita de todos os assuntos.

Para o filho, tudo que diz respeito ao pai é sagrado, no sentido forte de “intocável”. Por isso mesmo, ele comete alguns ensaios infantis de profanação contra os exemplares mais vetustos do acervo paterno. Já o achado de uma carta em meio a um exemplar de “O ramo de ouro”, pista nebulosa da existência do meio-irmão berlinense, abre para o jovem uma espécie de ponto de falha no império voraz e autossuficiente do pai. Fique claro que não se trata para ele de uma falta moral. Mas de um vestígio da errância juvenil, do desejo, do real do sexo, do império da natureza, do desconhecido e do não controlado, sem falar na pergunta fascinante pelo destino desconhecido desse outro, o irmão hipotético, a que se está ligado por uma obscura e enigmática cadeia hereditária. A procura pelo irmão é inseparável, desde então, da impossível demanda pela atenção e reconhecimento do pai, cujo segredo o narrador quer penetrar, como se ao tematizar o assunto fosse encontrar, finalmente, a chave de acesso para um improvável tête-à-tête, “olhos nos olhos”, com seu modelo impossível. O conhecido episódio biográfico de delinquência juvenil, por exemplo, em que o adolescente Chico Buarque se envolve com furtos de automóveis, comparece no livro como uma trangressiva fantasia de invasão do domicílio escritural do pai (cuja biblioteca é, por sua vez, toda erotizada).

Na impossibilidade de chegar ao pai e de saber do irmão, a não ser por tentativas fracassadas e por indícios inconclusivos, que vão se armando num lento quebra-cabeças, a via real do personagem-narrador, em seu embate com a pergunta lancinante que o assombra, é a fantasia. Enquanto Sergio lê, Francisco fabula. Ele divaga, devaneia, delira, sonha com as cenas sempre mutáveis e escapadiças dos encontros de Sergio de Hollander com a jovem alemã Anne Ernst nos idos de 1930, com os muitos possíveis destinos da criança gerada por eles, trágicos ou bem sucedidos, ameaçados pela violência do nazismo. Imagina acasos reveladores, projeta coincidências forçadas, forjadas, através das quais supõe encontrar vertentes que o conduzam ao coração do enigma. Tudo isso passa por uma memória dos anos 1960 e 1970 em São Paulo, entranhada na história da ditadura brasileira através de uma intrincada rede de espelhamentos.

Pelo que se soube, o livro começou a ser escrito sem que Chico Buarque conhecesse o paradeiro do irmão alemão real, e a escrita do livro esbarrou no impasse de estar condenada à conjectura infinita. Como se valesse para ele mesmo aquilo que o narrador fala do pai: que este poderia aprender todas as línguas e devorar todas as bibliotecas do mundo, mas não poderia concluir a sua obra se não suprisse essa ignorância dentro de si. Ao mesmo tempo, encontrar a resposta corria o risco explícito de perder a graça do não sabido, da qual se alimenta o jogo da imaginação. Graças às fabulações do livro, que têm lances profundamente engraçados (e não vi ninguém dizer isso), as possibilidades da vida permanecem inumeráveis, e o irmão alemão um sempre virtual outro irmão alemão.

Mas ao final este é encontrado, embora já morto, no jogo comovente e hilariante da vida e da arte. O caminho do reconhecimento é o da voz. O irmão foi um cantor popular da Alemanha Oriental, numa fabulação real que só Chico Buarque conseguiria imaginar. DNA dança sua dança, em espirais.

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