Almanaqueiras: ou não queiras.

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domingo, 30 de dezembro de 2012

Precisamos permitir que a todos seja assegurado o direito de ouvir, ver, ler e digerir as múltiplas tendências...





Um ano de singeleza

Mariana Moreira


O fim do ano sempre é motivo para reflexões. Nenhuma inspiração no repetitivo e nada criativo programa de final de ano do Roberto Carlos na Globo. Mas na necessidade cada vez mais urgente de termos qualidade de vida. Qualidade que não se restringe apenas a um meio ambiente saudável e sem depredações e contaminações. Mas que envolve outras dimensões nem sempre consideradas quando ponderamos quais caminhos devemos trilhar para termos o mínimo de possibilidades de ostentarmos a condição de humanidade.


Qualidade de vida social que implica em novos patamares para as relações entre os homens, com uma medida mais sensata de gentileza e cordialidade que vai além das artificialidades de gestos ensaiados e ritualísticos que não expressam qualquer indício de verdade. Qualidade de vida social que reconfigure a forma como entendemos nossos afetos e sensibilidades para não banalizarmos os abraços e os toques de carinho tão necessários em tempos de individualidade e isolamento.

Qualidade de vida cultural para que não sejamos forçados a ditadura hegemônica dos absurdos musicais, cinematográficos, televisivos que não estimulam a criatividade e o pensamento reflexivo, limitando a crítica a um comentário banal e inconsequente.  Precisamos permitir que a todos seja assegurado o direito de ouvir, ver, ler e digerir as múltiplas tendências que, situadas nas franjas da diversidade, permitirão que a escolha seja ancorada em opções legítimas e isentas de pressão mercadológica ou imposição de forças econômicas.

Que o ano novo seja motivação para pensarmos sobre em qual nível situamos nossa qualidade de vida e quais gestos e ações nos motivam a torná-la mais razoável em todas as suas implicações. Como estamos agindo, no cotidiano de nossos gestos e atitudes, para que nossa vida possa ter validade? Como construímos nossas relações sociais, afetivas, profissionais, acadêmicas, culturais, cidadãs, sem o ranço da presunção e da intolerância que corrói e decompõe as viabilidades de termos dignidade e vida saudável.

Queremos apenas a singeleza dos versos da Adélia Prado que, no seu poema Impressionista, nos ensina:


“Uma ocasião
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo”.


A todos, um ano novo de mais gentileza e cordialidade em nossos atos diários.


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