Pacto de Ano Novo
Nonato Guedes
A decisão foi unilateral. Na passagem do Ano, firmo o pacto de não comentar mais o mensalão do PT. O que tinha a dizer, já disse. Não fugi, em nenhum instante, de emitir opinião a respeito. Para quem não me leu, faço a síntese: não absorvo o escândalo nem absolvo os envolvidos. Conheço muito bem, de informações até pessoais, o enredo dessa história. Logo, estou dispensado de repetir o óbvio ululante. Que José Dirceu foi mentor de uma organização criminosa, englobando saque ao erário. Que outros expoentes petistas foram com sede ao pote, dentro da lógica de que isto era o que tinha de ser feito. Não estou convencido. Nem eu, nem o Supremo Tribunal Federal, com a diferença de que a Corte teve acesso a autos, provas testemunhais, etc, etc.
Não faltará quem lembre que há o mensalão tucano. Há, e deve ser apurado e punido com a mesma severidade aplicada a petistas. Não distingo partidos ou ideologias quando está em jogo o roubo. Na minha reles opinião, isto deveria estar afeto à Justiça Comum, onde ladrões de galinha são execrados sem dó nem piedade e muito menos qualquer nota de solidariedade. Mas o “pudê”, essa entidade sacrossanta, está acima de tudo, naturalmente. Tem o condão de protelar, embargar, achincalhar. Em tese. Porque de repente o Supremo se arvora o Olimpo, e aí não cabe recurso excepcional ou coisa que o valha. De resto, o país não está sendo apresentado agora a escândalos. Eles remontam ao Império, aos primórdios da República. A gente é que implica com essas coisinhas, talvez pela frustração de não termos sido convidados para o butim, que era o alvo predileto dos corsários de antanho. Não sou dinossauro, acreditem. Mas preciso conhecer em detalhes a geografia das influências para me situar no contexto global, sob pena de exclusão ou cominação de anátema. Legalista empedernido, não me aventuro a tanto.
O problema é a memória, que apesar da idade, mantém-se instigante. Ela me remete a escândalos da nova República: anões do orçamento, mensalinho na Câmara com Severino Cavalcanti. Se exigir muito, me conduzirá ao escândalo da mandioca em pleno regime militar, edificado sob a premissa da moralização e dos bons costumes. Éramos enganados, e não sabíamos. Pelo menos os que se aventuraram a promover Marchas com Deus pela Família...e pela propriedade. Pela liberdade, seguramente, é que não era. Retroceder nos fatos é necessário para compreender o que acontece nos tempos, digamos, hodiernos. Não sei se o termo está em desuso. Mas constava de dicionários como o Aurélio.
O eventual leitor há de suspeitar que estou dando uma volta olímpica para tentar conciliar o pensamento, torná-lo mais homogêneo. Fique à vontade o leitor, que deve, também, conviver com suas aflições existenciais, sobretudo quem leu Shakespeare. Seja como for, os dilemas sobrevivem, nessa ou naquela escala, dependendo da capacidade de exegese de cada um. Nada a ver com a escala “Richter”, que mede outras pulsações. Enfim, é possível chegar-se a um denominador comum. O Brasil precisa continuar a ser passado a limpo. Nada de atirar a sujeira para debaixo do tapete. Quem for culpado, pague. Quem for inocente, seja liberado. Simples, não fosse a nossa vocação intrínseca para complicar, para enfeitar o que não merece ornamento. Somos reféns de uma certa consciência atávica cúmplice ou benevolente. Com o malfeito, como costuma dizer a presidente Dilma Rousseff, em quem acredito e faço fé, até prova absoluta em contrário.
Tudo que acontece é pedagógico. Deixa lições, que podem ser ou não captadas pelos agentes intermediários. O ideal seria que houvesse uma assimilação instantânea, sem traumas, coerente com o que se vê e com os valores que se defende. Não vamos radicalizar, contudo. Há exceções, e temos que conviver com elas. O que não impede que rejeitemos as más exceções, aquelas que não acrescentam nada. Pelo contrário, desnudam a busca insaciável pelo poder. O poder, inclusive, de fazer o mal à sociedade ou coletividade para preservar interesses egoístas, encobertos em dogmas e filosofias que já não têm tanto impacto como antigamente. Ora, se ruíram ideologias firmemente embasadas, qual a dificuldade de “vazarem” as filosofias orquestradas em gabinetes acolchoados? Já vazaram. E há quem não foi avisado dessa realidade. Que pena!

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