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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Há um certo exagero nos rigores da Lei Seca...



Lei seca: a mão que afaga é a mesma que apedreja

Linaldo Guedes





Há um certo exagero nos rigores da Lei Seca ora em vigor no país. Desde o final de semana que a lei vem sendo aplicada com rigor em todo o país. Na Paraíba, conforme matéria publicada no REPORTERPB, na primeira madrugada em vigor das novas regras da lei, policiais e agentes de trânsito bateram o recorde de multas e de utilização do bafômetro. Jornais e portais comemoram os índices de fiscalização com manchetes garrafais e a cada edição ampliam as estatísticas com os novos números dos presos em flagrantes, embriagados ou não.

Não há como negar a importância de tal lei. Os números da violência e irresponsabilidade no trânsito assustam a qualquer pobre mortal. Alguma coisa tinha que ser feita para estancar essa sangria desatada nas estradas e avenidas das cidades brasileiras. Mas a dose, vamos ser sinceros, foi excessiva. E hipócrita, convenhamos.

Excessiva porque se denomina embriaguez o consumo de um simples licor após o café. Aconselha-se a deixar o carro e os motoristas fazerem uso do táxi quando forem beber. Ora, João Pessoa tem em torno de setecentos mil habitantes. Teremos táxis para essa quantidade de gente em dias de grandes eventos na cidade? Claro que não.

Ademais, o governo estimula e repreende ao mesmo tempo. Ou seja: a mão que afaga é a mesma que apedreja, como diria o poeta.

Estimula porque não proíbe a venda de bebidas alcóolicas nos bares e restaurantes desse Brasil. E estimula, claro, porque ganha altas somas com impostos das marcas de cervejas e outras bebidas que povoam as nossas televisões diárias. Imagina o quanto deixaria de lucrar em impostos o governo, caso resolvesse proibir a venda de bebidas.

Ao mesmo tempo repreende. E coloca guardas na porta dos bares para multar o consumidor de cerveja, cachaça, uísque ou quaisquer outras bebidas.

Ganha nas duas pontas.

Ganha com a venda de bebidas e ganha com as multas pela venda de bebidas.

O governo sabe, claro, que só existe Lei Seca porque existe liberdade para se vender bebidas até mesmo para crianças.

Mas a hipocrisia do governo recebe aplausos da sociedade. Aplausos hipócritas também. Porque muitos que aplaudem, fazem isso tomando uma cerveja bem gelada numa barraca da praia, enquanto monitora o local da próxima blitz de trânsito.


Linaldo Guedes 

é cajazeirense, jornalista e poeta. Lançou, entre outros, “Metáforas para um duelo no sertão” (Editora Patuá-SP). É editor executivo do REPORTERPB. E-mail para contato: linaldoguedes@uol.com.br

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