Alamanaqueiras: ou não queiras.

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Artrópodes articulando.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Chico seguiu sendo também um farol político e ético para todos nós. Não importa se nem sempre estávamos de acordo com o que ele dizia. Importa é o respeito que ele soube impor pela retidão de tudo o que disse e fez, pelo caráter de sua vida como artista e como cidadão.

Mas sua filha gosta

 Cacá Diegues




Chico seguiu sendo farol político e ético para todos nós. Não importa se nem sempre estávamos de acordo com o que dizia. Importa é o respeito que ele soube impor pela retidão

Chico Buarque de Hollanda está terminando um novo disco, para ser lançado mês que vem. Acho que ninguém ainda ouviu nada, nenhuma das novas canções gravadas. Mas elas serão certamente tão lindas quanto tudo o que ele já fez antes, agora com um peso que é o da leveza do tempo, o que experimentamos de menos conforme os anos passam. O mais de nossas vidas.

Fico pensando que, entre nós, esse é um momento que se assemelha a uma festa em nosso calendário. Um Natal, um Ano Novo, um carnaval, um Dia da Independência. Um momento que a gente espera com a ansiedade de quem espera por um aniversário bissexto. Raro, porém fatal. Chico é daquelas pessoas de quem queremos e devemos aproveitar até a respiração.

Em meados dos anos 1960, eu já ouvira falar de Chico, através do entusiasmo de Nara Leão por suas canções e de Hugo Carvana que, tricolor como ele, já o conhecia de música e de Maracanã. Não me lembro de ter escutado nada de sua música nesse período. O que sabia de relevante sobre ele, era apenas que se tratava de um filho de Sérgio Buarque de Holanda, um daqueles grandes intelectuais que redescobriram o Brasil na onda do Modernismo paulistano.

Uma noite, fui jantar no Rond Point, pequeno restaurante numa esquina da avenida Nossa Senhora de Copacabana, onde se reuniam estrelas da boemia carioca, quando me apresentaram a um rapaz de olhos muito verdes que, recém-chegado de São Paulo, bebia no balcão da casa. Era ele.

Curioso, tentei inutilmente puxar conversa. O cara mal falava, simplesmente resmungava coisas quase sempre incompreensíveis, como se estivesse cumprindo uma obrigação social que o enfastiava. Só com o tempo compreendi que não se tratava de uma rejeição, com a finalidade de deprimir o interlocutor. Mas de uma timidez que, até hoje, não sei se também é estratégica.

Já tinha ouvido Nara cantarolar à capela uma marchinha de Chico, lendo numa folha de papel as palavras que ainda não havia decorado. Ela garantia que aquele seria o próximo sucesso da nova música popular brasileira, em plena ascensão com o apogeu da bossa nova, o novo disco de João Gilberto, a consagração internacional de Tom Jobim, os versos de Vinicius de Moraes e uma rapaziada que surgia naquele momento, como Carlos Lira, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Marcos Valle, Francis Hime, tanta gente mais.

Não deu outra: no próximo Festival da Canção, “A banda” se tornaria a vencedora e sairia consagrada, tornando seu autor um herói nacional, amado por todas as gerações, regiões, classes, etnias, o que fosse. Pelo menos em meu tempo de vida, nunca conheci uma unanimidade artística semelhante à de “A banda”.

É curioso como, nesse período entre o golpe militar de 1964 e o Ato Institucional nº 5 de 1968, a arte brasileira viveu um momento de imensa criatividade, como se os artistas estivessem adivinhando o que estava para acontecer e tivessem pressa em realizar a tempo o que tinham de melhor para oferecer deles mesmos. Da bossa nova ao Cinema Novo, do protesto ao experimental, do concretismo ao mimeógrafo, da MPB ao tropicalismo, tenho a impressão de que poucas vezes, na história do Brasil, tivemos fase tão rica de imaginação e mudanças radicais, acompanhadas de permanentes e intensas discussões teóricas. E tudo isso a uma velocidade de quem tinha consciência de que era preciso antecipar-se à catástrofe.

Desde então, continuando a ser o compositor de sucessos populares que sempre foi, independente do regime em cartaz (“você não gosta de mim, mas sua filha gosta”), Chico seguiu sendo também um farol político e ético para todos nós. Não importa se nem sempre estávamos de acordo com o que ele dizia. Importa é o respeito que ele soube impor pela retidão de tudo o que disse e fez, pelo caráter de sua vida como artista e como cidadão.

Para mim, ele continua muito parecido com o rapaz que conheci no Rond Point. Mesmo na intimidade, Chico fala pouco e parece sempre duvidar do que ele mesmo diz, como se seu pensamento fosse uma permanente prova dos nove do que pode ser ou não ser. Suas convicções não são negociáveis. Mas ele nos dá a impressão de que elas podem sempre ser discutíveis, enquanto houver motivo para pô-las em questão. Chico jamais deixará de ouvir o outro, como quando o vi atravessar uma rua para ir tentar conversar com um grupo de jovens cafajestes que o xingavam de longe, por causa de suas posições políticas.

Chico Buarque de Hollanda é um grande artista brasileiro, que nunca será esquecido por essas e outras gerações que ainda virão. Ele está acima do tempo. É uma graça do destino ser seu contemporâneo e esperar por seu próximo disco.

Cacá Diegues é cineasta

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