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segunda-feira, 3 de julho de 2017

"Caminhos da Esquerda"

Para onde, esquerda? 

Celso Rocha de Barros


SÃO PAULO, SP, BRASIL, 26-06-2017: Ruy Fausto, filósofo. Em junho de 2017 ele lança "Caminhos da esquerda", um balanço crítico da experiência histórica da esquerda e algumas propostas de reconstrução. O livro tem como base um texto publicado na revista piauí, em outubro de 2016, e que provocou extenso debate com interlocutores de todos os espectros políticos. (Foto: Giovanni Bello/Folhapress, PODER) ***EXCLUSIVO FOLHA**** ORG XMIT: 30894

Nesta segunda (3), às 19h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, haverá o debate de lançamento do novo livro do filósofo Ruy Fausto, "Caminhos da Esquerda", com participação do economista Samuel Pessôa, deste vosso humilde servo e mediação de Marcelo Coelho.

É uma boa oportunidade para discutir o futuro da esquerda, em um momento em que há ao menos dois motivos para fazê-lo com urgência.

Em primeiro lugar, o fracasso do governo direitista de Temer abre novas perspectivas para que candidatos de esquerda vençam as eleições. Seria ruim se a volta ao poder se desse ainda só no espírito do radicalismo reativo pós-impeachment.

Em segundo lugar porque parte importante do PT, liderada pelo ex-governador Tarso Genro, parece disposta a se afastar da direção da legenda. Não sabemos, ainda, se isso resultará em um novo partido, na participação autônoma do grupo de Genro em uma frente de esquerda mais ampla, ou mesmo na redistribuição de poder dentro do Partido dos Trabalhadores. Nesse quadro, o livro de Ruy Fausto pode ser um bom ponto de partida para discutir o que deve ser uma esquerda renovada. Fausto, a propósito, parece simpático ao movimento de Genro.

"Caminhos da Esquerda" se propõe a combater três "patologias" que afetam a esquerda brasileira: a totalitária (os resquícios de simpatia pelo socialismo real), a populista (que afetou os governos petistas) e o adesismo (a dissolução total no centro, como ocorreu com o PSDB).

Não tenho nenhum reparo ao que Fausto diz sobre totalitarismo e populismo, e concordo que muita gente na esquerda brasileira precisa aprender essas lições.

Entretanto, tenho uma discordância e meia com as teses de "Caminhos da Esquerda" e acho que ambas devem ser levadas em consideração pelos projetos de reorganização da esquerda brasileira.

Acho que a base para a reconstrução deve ser o que deu certo na experiência petista: os primeiros passos de uma social-democracia brasileira.

No governo Dilma, cometemos erros na gestão econômica, erros pela esquerda: por excesso de intervenção estatal e descontrole fiscal. A renovação da esquerda deve passar, também, por este acerto de contas.

Temo que as incursões de Fausto pelo tema do "anticapitalismo", embora nuançadas, possam favorecer a esquerda economicamente irresponsável. Essa é minha discordância.

A meia discordância é uma nuance quanto à experiência petista de alianças. É preciso admitir que, se o PT escapou da tradição totalitária para cair no vício da corrupção, o espaço entre as duas alternativas, no caso brasileiro, era estreito. O PT nunca esteve sequer próximo de ter uma maioria parlamentar.

Nada na estrutura do sistema obrigou o partido a roubar (como roubou), mas é difícil imaginar como poderia ter governado sem distribuir cargos para aliados que roubavam (era o caso do grupo de Temer). E, se o PT tentasse governar sem alianças, o risco de recair no totalitarismo (ou no populismo autoritário) certamente teria sido maior.

Aí talvez esteja, aliás, o maior potencial político do livro de Fausto: ajudar a esquerda a se livrar de heranças totalitárias e populistas que ainda povoam seu imaginário, afastam centristas sinceros, e tornam os centristas de aluguel indispensáveis. A discussão continua hoje à noite. Estão todos convidados.

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