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quinta-feira, 29 de junho de 2017

"Divinas Divas"

Minha covardia me dá vontade de agredir quem ousa viver "do seu jeito" - 

Contardo Calligaris 


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"Divinas Divas" é um filme surpreendente e imperdível. É difícil acreditar que seja o primeiro longa de Leandra Leal. Isso, pela qualidade da escrita e da direção e mais ainda pela maturidade do olhar, do sentir e do pensar.

Em plena ditadura militar, um grupo de artistas travestis montou um espetáculo de revista no Rio de Janeiro, no teatro Rival –que, na época, era dirigido por Américo Leal, avô de Leandra.

Hoje, o mesmo grupo de artistas volta ao palco. E Leandra conta e mostra a história dessa volta.

Saí do cinema com uma tremenda admiração pelas "Divinas Divas". Uma delas, num momento do espetáculo e do filme, canta "My Way" (vivi do meu jeito"¦), a música que ficou famosa na versão de Sinatra. Qualquer uma das artistas, hoje idosas, poderia cantar que ela viveu "do seu jeito", e o efeito em mim seria o mesmo: uma espécie de reverência diante da coragem de quem se aventura a viver encarando o que vier (do escárnio ao ódio) para respeitar seu próprio desejo.

Em geral, supõe-se que agressões e assassinatos contra travestis e transexuais (o Brasil é campeão nisso) sejam o efeito de um interesse sexual mal reprimido: "Bato numa travesti para bater no meu próprio desejo inconfessado de transar com ela ou de ser ela".

Há outra explicação, não excludente: "Bato na travesti que cruzo na rua porque odeio a coragem que ela tem de viver segundo seu desejo –que ela tem, e que eu não tenho. É a vergonha de minha covardia que me dá vontade de agredir quem ousa viver "do seu jeito".

Usei até aqui a expressão "artistas travestis", como se fosse perfeitamente adequada. No melhor dos casos, é uma gambiarra. Em Paris, nos anos 1970, em matéria de "transtornos de gênero", eu entendia muito menos do que hoje; por consequência (cuidado: ironia), eu tinha certezas afiadas e até opinava se e quando operações de mudança de sexo deveriam ser permitidas.

Parêntese. Engraçado, é sempre assim: quanto menos a gente entende, tanto mais a gente parece ter ideias claras e definidas.

Enfim, na época, meu "saber" tinha dois pilares.

O primeiro pilar era feito de distinções categóricas entre travesti, cross-dresser, drag, transformista, transgênero, transexual etc., como se fossem espécies rigorosamente distintas. Pois é, nunca são.

O segundo pilar era a separação pretensamente rigorosa entre transtornos de identidade de gênero e fantasias sexuais que envolvem uma mudança de gênero. Nos transtornos de identidade, o gênero de minha imagem no espelho não corresponde ao gênero ao qual sinto que pertenço: por exemplo, sinto-me mulher, mas o que aparece no espelho é um homem. Nas fantasias sexuais, não estranho minha identidade e meu corpo, mas posso imaginar estar transando e gozando como se eu fosse do sexo oposto.

Corolário dessa distinção: a mudança de sexo deveria ser autorizada a quem se sentisse homem num corpo de mulher ou mulher num corpo de homem, mas seria desaconselhada para quem "apenas" fantasiasse pertencer a outro sexo no coito.

Ora, a separação rigorosa entre transtornos de identidade e fantasias sexuais só existe em monografias e artigos acadêmicos.

É fácil enxergar quanto essa distinção é problemática lendo o último livro de Susan Faludi, "In the Darkroom" (na câmara escura), em que a escritora e ensaísta americana conta a descoberta de que seu pai (que ela não via havia tempo) mudara de sexo.

Na história, o transtorno de identidade de gênero é indissociável do que Faludi descobre das fantasias sexuais do pai dela.

Na verdade, quase sempre a dor de não se reconhecer no gênero de seu corpo é ligada às fantasias sexuais alimentadas pelo próprio projeto de mudar de gênero.

Um jovem transexual, que queria se transformar de mulher em homem, declarava, por exemplo, que ele continuaria desejando homens. O juiz lhe perguntou se não seria mais fácil e adequado, portanto, que ele continuasse sendo mulher. Ele respondeu que queria transar com homens, só que não como mulher, mas como um homossexual masculino. É isto: a identidade e o desejo sexual são intrincados.

Uma das "Divinas Divas", respondendo a uma pergunta, declara querer ser mulher, mas logo hesita. Parece dar se conta de que ela está, de fato, além da alternativa dos dois gêneros. O que ela quis ser é quem ela é: uma mistura única de fantasias, de gêneros –e de coragem. 

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